Uma vez, com toda sua boa vontade, o menino, ingênuo, pegou um giz e deixou sua mensagem na parede, mas eu, particularmente, não entendi nada do que estava escrito.

Havia muito tempo que ela não conseguia se dedicar ao seu marido. Era extremamente estressante manter a cabeça ativa pra cuidar das crianças, evitar que a casa fosse virada de pernas pro ar e fazer com que tudo desse certo no escritório. Ela não conseguia; nunca sobrava tempo pro esmalte, e seu cabelo há tempos não tinha um banho de creme. Mas era o que ela podia fazer; essa era a sua responsabilidade, ela não podia de forma alguma se queixar disso ou querer passar a batata quente pra frente.
Numa quinta-feira à noite, sem terem planejado, ela e seu marido, no meio de um congestionamento, param lado a lado esperando o sinaleiro. Ele, brincando com ela, começa a paquerá-la. Ela ri e vai na dele. Dali mesmo, da janela de seus carros, eles combinam de ir pro cinema – as crianças ficariam com a empregada hoje, só hoje.
Como nos tempos em que ainda era adolescente, eles foram assistir a um filme qualquer. Assistiram o filme todo de mãos dadas. Num daqueles momentos desinteressantes, no escurinho do cinema, eles se beijaram. Ela sentiu, como há muito não sentia, as borboletas no estômago; sentia-se voando. Fazia tempo que não se deixava levar dessa forma e conseguia esquecer das contas e de todos aqueles problemas todos. No meio do beijo, ela para o beijo e ri de uma piada que a menina do filme diz e percebe o quanto, de verdade, ela devia estar feliz.
Ele se sentia feliz em saber que onde quer que ela estivesse agora eles estariam olhando pra mesma estrela.

Saída

Ela acordou assustada; as vozes das pessoas, que falavam alto, haviam-na acordado. Ainda com a visão um tanto embaçada, ela olhou em volta. Estava sentada no chão deitada sobre os braços que lhe serviam de travesseiro sobre uma cadeira. Por todos os lados, pessoas, ocupadas, iam e vinham. Estava no saguão de um aeroporto; junto com ela, naquelas cadeiras, pessoas, ansiosas, esperavam por seus voos, parentes e desconhecido. Ela, por sua vez, sentia seus braços formigarem. Ela não conseguia se sentir à vontade em meio àquele tumulto; levantou e, cambaleante, procurou por uma saída. No banco logo atrás daquele em que ela estava deitada, estava aquele senhor que ela sempre via na praça, com os olhos frios em seu caderno e com seu lápis correndo por toda a folha como se não obedecessem aos comandos do velho. Do outro lado do saguão, via-se a porta; havia muita gente, ela mal conseguia locomover-se. Muitas pessoas conhecidas passavam por ela e acenavam; amigos de infância diziam coisas em línguas que ela não falava; sempre que havia aqueles que tentavam puxar algum assunto, ela sentia que aquele não era o lugar; deixava-os todos falando sozinhos — até mesmo sua irmã, de quem ela gostava tanto.
Do outro lado da porta, silêncio. Assim que ela fechou a porta atrás de si, um silêncio sepulcral se instalou; ela sentia-se aliviada, como se tivessem tirado um peso muito grande de seus ombros. No teto, pendiam lâmpadas fluorecentes por todo o corredor, que seguia cheio de portas dos dois lados, até sumir de vista. Lembrava-lhe o corredor de uma escola, mas as paredes, impecavelmente limpas, faziam-na pensar num hospital. Como o que ela queria era apenas sossego, aquilo lhe servia pelo silêncio.
Saiu por uma porta onde se lia saída e se viu num jardim cheio de flores, onde, por ser qualquer época do ano, não se viam flores, e se sentiu novamente à vontade. Recostou-se sob a sombra de uma árvore e dormiu por ali mesmo.

Frustrada com todos, ela se sentia decidida. Nada estava sendo do jeito que ela queria. Quando criança, ela sonhava com seu mundo encantado de sua vida adulta, com seu príncipe, com seu castelo e com tudo em volta feito pra que ela se sentisse feliz. E, hoje, felicidade era o que ela não via. Sem avisar ninguém, subiu cabisbaixa ao terraço. Diria adeus aquele mundo cruel que era o que restava daquele de seus sonhos e que não tinha nada de incrível.
Lá em cima, no limite do horizonte, um maravilhoso pôr do sol, que fazia seus olhos brilharem, a fez se sentir envergonhada de não ter prestado atenção nisso antes. Havia quantos anos desde a última vez que ela tinha assistido um pôr do sol?
Tirou os sapatos e sentou confortavelmente no chão. Olhou o sol vermelho até ele parecer completamente azul aos seus olhos. No céu, as nuvens, espalhadas, cada uma à sua forma, uma mais bonita que a outra, pareciam algodão doce. Se surpreendeu com o tom colorido do céu, que era alaranjado lá perto do sol e, conforme ela seguia olhando pra cima, até olhar, de ponta cabeça, pro outro lado e ver que, com a chegada da noite, brilhava num tom arroxeado. Percebeu que ela esteve por muito tempo procurando a beleza no lado feio e, só agora, percebia o quanto, de verdade, ela devia estar feliz.
não fez questão de apagar suas pegadas, mas precisou ter a certeza de que ninguém estava seguindo.

( )

( ... então, no meio da rua, eu tive aquela ideia — o insight. preguei meus olhos no vazio e deixei meus pensamentos viajarem. "isso rende um conto", logo pensei. passou por mim um transeunte, nem lhe dei atenção.

que cara de chapado, ein, irmão — disse ele.

¬¬ . não lembro mais da ideia que eu tava pirando )

[...]

Era um daqueles dias cansativos. Teve que vir de ônibus, o carro resolveu estragar justamente quando se precisava tanto dele. Estava estressado, com raiva. Ônibus lotado. Ele se sentia totalmente deslocado ali dentro, com sua pasta não mão direita e seu terno, na esquerda, pendurado, tentando achar seu lugar dentro daquela lata de sardinha, numa daquelas hastes verde-limão. Todas as ligações que ele tentou fazer tinham dado errado; todos os negócios, que ele ansiava fechar hoje, tinham dado errado. Nada estava sendo do jeito que ele queria. 
Quando ele finalmente conseguiu sair do ônibus, tentando achar as forças pra caminhar o longo trecho a pé que, de carro, ele faria em menos de dez minutos, começou a chover. A chuva caía em pingos finos e constantes e incomodava. De súbito, ele parou. Prestou atenção no jeito que a chuva lhe tocava. Havia quantos anos desde a última vez que ele se deixara molhar pela chuva? 
Deixou a pasta sob a cobertura de um orelhão, tirou os sapatos e se sentou no meio fio. Por mais de uma hora, ali, sentado, com a chuva, como uma velha amiga, lhe fazendo cócegas, assistindo a rodas dos carros desfilarem na água que escorria rua abaixo, ele pensou no quanto, de verdade, ele devia estar feliz.

Si Bemol Menor

Sempre que estava confusa, sentar-se na sacada abraçada ao seu violoncelo lhe fazia organizar seus pensamentos. Era possível saber como ela se sentia apenas pelo tom da música que tocava; funcionava como detector de sentimento.
Essa música era em si bemol menor, a mais acidentada das escalas. Para ela, esse tom soava confuso devido ao grande número de notas em bemol ou sustenidas. Nessa escala, todas as notas praticamente são sustenidas – como tocar apenas nas teclas pretas de um piano. Mas, ao mesmo tempo em que para ela esse tom remetia à confusão, ainda era um tom menor, ainda tinha um tom triste, e o timbre choroso do violoncelo não ajudava a diminuir o clima fúnebre.
Lá fora caía uma garoa fria que o vento gelado trazia pra dentro do apartamento; mas ela não pensava nisso, seus pensamentos estavam bem mais longe de uma discussão sobre o tempo. Lá embaixo a avenida de acesso à cidade com seu tráfego intenso: a todo momento muitas pessoas saíam da cidade enquanto muitas outras chegavam; lá de cima parecia que eles estavam todos andando em círculos, como quem não sabe aonde quer ir. Quantas vezes dali, da sacada do décimo primeiro andar, ela tinha parado para assistir, em silêncio, o espetáculo das luzes dos carros, que corriam como baratas tontas, já não sabia dizer. E quantas vezes ela não estava sozinha?
A essa altura ele já devia estar longe. Por não ter pedido para que ele ficasse, ela não se sentia no direito de ficar triste. Ele tinha ido embora. No entanto, agora que ela se lembrava, percebia que ele nunca tinha estado ali de verdade. A essa altura, ele já devia estar longe, mais longe de que jamais esteve. Ele devia já ter pulado do topo do mundo, estendido suas asas e ido bem mais alto do que o alguém que tinha chegado mais alto. Ele foi feito para coisas grandes. Esse mundo parecia pequeno demais para ele.
– Não deixe a vida passar, pegue carona com ela. – Foi o que ele lhe disse certa vez, e, agora, aquilo ecoava na cabeça dela. Ela se envergonhava de sua fraqueza, de sua ingenuidade de acreditar que a vida já era boa assim, que somente o tempo poderia lhe trazer boas coisas; ela fora ingênua de acreditar que, como das outras vezes, desta vez ele voltaria. Ela tinha sido ingênua de ter por tanto tempo esperado o sol voltar a brilhar; tinha sido ingênua de ter acreditado que o sol brilhava para ela. Lembrou-se das tantas vezes que, como uma criança, buscava respostas nas coisas mais bobas; procurara por entrelinhas sutilmente dedicadas a ela, versos por ela inspirados, sonhos por ela suspirados, lágrimas por ela derramadas. Mas o que lhe restavam eram lágrimas derramadas por ela.
Sem querer, ela tinha aumentado o tempo da música; e ofegava; e acentuava todas as notas; e sua mão suava; e ela tocava mais e mais rápido; e as cordas rangiam; e ela segurava tão forte que parecia que o arco ia quebrar; seus dedos tremiam.
Depois de um tempo, acostuma-se até mesmo com a confusão do si bemol menor; o que parecia confuso e destoante, depois de tanto ter sido martelado, agora parecia apenas um tom menor, como qualquer outro; qualquer que fosse o sentimento dela agora, não parecia confuso; era uma mistura da tristeza do tom menor com a raiva com que ela fazia soar as notas. Ela suava frio; o brilho do suor se confundia com o das lágrimas. Sua maquiagem já havia tempo estava borrada.
Entretanto ela se sentia forte. Perguntava-se se os efeitos dos remédios já tinham começado. As ideias pareciam muito mais claras em sua cabeça; mais uma vez, o violoncelo tinha lhe ajudado. Parou de tocar e debruçou-se sobre a sacada. Olhava o horizonte distante daquele fim de tarde de nuvens cinzentas. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino. O frio tinha diminuído. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino. Secou com as mãos as lágrimas do rosto. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino.
De braços abertos, ela deixou o corpo pender sobre o parapeito e, com os pingos da chuva fina lhe acariciando a pele, ela se deixou cair e, enquanto planava no ar e sentia o vento batendo em seu rosto, esperava ser acolhida nos braços dele, que com suas asas certamente a salvaria antes que ela atingisse o chão. – Era o que ela estava fazendo com sua vida; diante de seus olhos, ela via a vida vazia que vivia.

Janela para um Pensamento Inacabável

Do alto da minha janela eu via as pessoas caindo. Elas nem percebiam que estavam cada vez mais perto do chão; nos seus olhos se expressava uma alegria desmedida. Parecia que eles não faziam ideia de o que era cair; em sua queda livre, eles faziam coisas que se pensassem duas vezes não fariam. Casais casavam-se no ar; alguns homens carregavam enormes cargas de alimento, sem saber que, na água, lá embaixo, tudo aquilo, inclusive eles, seria comida para os peixes, que, mansos, esperavam pacientemente.
Às vezes, sem perceber, eu passava horas prestando atenção no instinto dessas criaturas; parecia que elas eram todas feitas de pano – por isso, vez ou outra, ingenuamente, eu acreditava que algumas delas talvez conseguissem não se arrebentar nas águas geladas lá debaixo ou, pelo menos, não fossem comidas pelo peixes. Nos seus rostos, que se pareciam maquinalmente uns com os outros, expressava-se uma inexpressividade que parecia dizer que, por dentro, mais ainda, eles se assemelhavam a bonecos de pelúcia. O olhar dos cadentes era frio – por mais feliz e amigo que fosse; eles tinham uma auto-confiança de quem sabe tudo e tem certeza que ninguém mais sabe. Eu tenho pena deles.
Na maior parte do tempo, no entanto, eu preferia não assistir a esse – por que não dizer? – maravilhoso espetáculo do tempo; não foi só uma vez que me vi, abraçado aos meus livros que nunca li, enrolado num cobertor de plumas, observando atentamente um ponto qualquer na parede e ali, inerte, permanecendo por horas intermináveis que, para mim, passavam rápido demais.
O barulho das pessoas não me incomodava, mas, de maneira alguma, me era prazeroso. Havia dias em que, por acaso ou vontade do destino, meu estado de espírito me fazia, sem prestar atenção, prestar atenção no quanto me fazia falta ter dias inteiros em silêncio, sem vozes, sem o barulho do vento, sem queixas, sem gemidos: o silêncio, mudo e envolvente, quente e confortante, ao mesmo tempo em que é frio e egoísta. Ao mesmo tempo que eu queria sair de lá, a tempestade de pessoas ganindo lá fora me fazia querer nunca sair de lá. Se fosse fácil, eu já teria há muito tempo, fechado a maldita janela.
Como quem tenta se justificar ou pedir desculpas, quando me surgem forças extras, eu me pergunto se tem mais janelas como essa minha lá pra cima ou lá pra baixo; haveria mais aberrações como esta, que, alienadamente, assiste ao fim do mundo? que usam todo seu tempo para, de olhos fechados, esperar? É sempre nessas horas que me vem a ideia de que, no fundo, não importa quantas mãos lhe são dadas, cada uma dessas criaturas vai, lá embaixo, morrer sozinha, individualmente. Por isso que, sem pensar duas vezes, como sempre antes, juntei-me à massa cadente para procurar uma janela mais próxima do chão; tentei, tentando manter minha consciência, ser uma parte, e não o todo, desse fluxo contínuo de que sempre consegui ver os defeitos. Já esqueci quão esférico eu fui um dia; hoje minha máscara mostra a superficialidade que me esforço aficionadamente para manter firme.
Mas, antes que meu rosto se torne mais um número no meio dessa imensa multidão, eu tento achar um fim pra mim. Queria que, pra me salvar, você enxergasse em mim aquilo que me faz ser diferente desses outros tantos que, na verdade, se parecem, realmente, muito comigo – afinal, essa diferença não é assim tão sutil. Ou é? Olhando profundamente nos seus olhos, tenho a sensação de já ter lhe visto antes em algum lugar.
– Tem um monte de coisa que eu queria te dizer mas não sei como.
– Você só diz isso?
– É que tem um monte de coisa que eu queria te dizer mas não sei como.

So did mine

Eu corria como um louco. Era tarde da noite; o barulho dos carros cessara quase por completo; não havia ninguém por perto. A cidade estava vazia. Eu tentava deixar para trás tudo aquilo que tentava me destruir; faziam meses que aos poucos meu corpo era dilacerado; em meus braços feridas enormes, em minhas pernas faltavam pedaços; mais um pouco e minha cabeça seria arrancada.
Eu descia ainda correndo por uma rua estreita com postes de luzes amarelas. Aquele silêncio agoniava; só o barulho dos meus passos, pesados na calçada de paralelepípedos. Que horas eram? Parecia que eu corria há horas e sentia que não estava me distanciando. Era como se aquela coisa estivesse presa a mim; eu podia sentir seu calor gelado soprando meu corpo, sentia aquele arrepio congelante que da nuca descia pelas minhas costas. Eu suava frio.
Ao virar a esquina, parado na outra esquina havia um homem. Eu. Não conseguia ver seu rosto, mas sua presença me amedrontava. Pensei em desviá-lo – atravessando a rua, talvez – mas havia algo naquela figura deveras familiar que me atraía a ela! Parei de correr e segui em passos cautelosos até ele; eu não sabia o que aquilo significava, mas, com razão, temia que bem não me faria. Chegando mais perto, consegui ver seus olhos; eram frios, negros como a escuridão que nos rodeava – parecia que em seu redor havia uma aura escura. Aquele não era eu, mas era o que eu me tornaria. Poucos segundos depois, eu seria algo que só existe em algum lugar inatingível. Poucos se lembrariam de mim.
[...]
Eu havia planejando todos os detalhes minuciosamente. E sabia que nada sairia do jeito que eu queria. Preferi, na última hora, abandonar o plano e apenas executá-lo. Naquele momento, o fim era mais importante que o meio. Não sei por quanto tempo esperei; tudo o que lembro não é de muito antes de nosso rendezvous.
Esperei naquela velha esquina. Eu sempre vinha àquele lugar. Sabia que procuraria aquele lugar numa hora de desespero. Meu medo o traria a mim. Em pé, esperei. Minhas mãos geladas não ajudavam a esquentar o aço frio que tentava esconder em meus bolsos.
Como um boneco mal manipulado, como esperado, eu virei a esquina como um louco fugindo do invisível, com um medo irracional, infantil e doentio estampado no rosto. Seus olhos eram de súplica, me olhavam como se eu fosse sua última esperança. Sem ter consciência disso, com isso, ele assinava sua sentença de morte.
Sem pensar duas vezes, por já ter pensado inúmeras vezes antes, atirei-lhe no peito e ele caiu duro no chão frio. Seu rosto exprimia alívio. O meu também. Ele morria. Não deixava filhos nem testamento conhecido. Era menos um que vivia.
Juntei o corpo e joguei sobre os ombros. Por um tempo, como castigo, tenho que carregá-lo por onde quer que eu vá. Seu medo irracional me seguirá por uns tempos. E quando terminar de me corromper, eu serei morto, como todos os outros antes de mim. Em breve, todos seremos mortos, um a um.
[...]
O tempo parou.
A água da chuva que escorria no meu rosto tinha gosto de chocolate.
(O Fantasia Orgânica tem muito das características do Sub-Realidade, no entanto é longo demais pra caber aqui. Resolvi fazer uma página só para ele. Divirta-se.

Quantas horas fiquei fitando essa página em branco até ter a coragem de escrever essas primeiras palavras. Tem tantas coisas que eu queria dizer pra você, mas que não sei como. Às vezes, parece que me faltam as palavras; noutras, parece que não existem as palavras de que preciso. Às vezes, é o silêncio que expressa o que eu quero dizer. Às vezes, seria melhor, talvez, eu deixar a página em branco — quem sabe assim eu seria mais bem entendido.

Lágrimas de Orvalho

Como um girassol, vi o sol nascer e segui-o até o momento em que se pôs. Meus olhos não agüentaram e desistiram antes de mim. Então, cego, procurei a lua. Mas só o que minha mente conseguia ver era o sol. Por algo maior, perdi a sensibilidade para apreciar detalhes; já não mais via a lua nem sabia mais o que eram estrelas — e não sei se um dia soube.
Caído no chão úmido, coberto de orvalho, tentava me convencer a acreditar que fora daquele jardim existiam luzes no fim do túnel. Eu tinha medo das flores e das folhas que caem das árvores; sentia-me perdido; sentia-me sujo. Sentia como se meus dias fossem mais longos e as minhas noites fossem piscares de olhos.
Ensaiei buscar estrelas cadentes; ensaiei buscar o fim do arco-íris. Sempre quis saber como é estar onde eu não estou. Meus sonhos eu arquitetei sobre bases frágeis; sinto não ter estrutura pra sustentar meus próprios anseios.
Desde que desaprendi a voar, fui deixado e esquecido aqui. Meu rosto, colado no chão, se congelava na geada. Minha respiração se enfraquecia. Meu coração eu sentia bater sem forças. Meus devaneios se esvaneciam no ar pesado que me rodeava.
Um dia tive asas. Um dia voei e só depois descobri o quanto isso me era caro. Aprendi o que é ter um pedaço de meu corpo arrancado. Mesmo que se tentasse substituí-las, nada se compararia. O que me puseram no lugar das asas foi um medo doentio e uma medíocre falta de razoabilidade que sempre temi ter que enterrar junto comigo.
Como um verme, rastejei por aquele jardim. Guiado por algo além de mim, uma intuição mais cega do que meus sentidos, esperei por várias luas. Não importa o que eu fazia, tudo, no fim, trazia-me de volta ao sol. Cavei um fundo buraco e joguei-me dentro dele; permaneci lá por um tempo que pensei ter sido um século. Assim que o sol nasceu me vi em pé e ansioso por vê-lo sair detrás das nuvens. Por um longo tempo senti-me frustrado por não tê-lo visto; fiquei horas, doente, sob a chuva; eu sabia que ele estava lá, com todo seu esplendor, brilhando por trás daquele dia cinza.
Como um verme, criei-me um casulo e tranquei-me dentro dele — numa esperança ingênua de que se criem de volta minhas asas. Ainda espero o sol — e não sei se devo me orgulhar disso. Ainda me sinto sujo. E ainda estou cego.

No fim das contas, aquela sim foi uma noite ensolarada.

dormi demais

Eu acho que eu dormi demais. Também: foi um daqueles dias cansativos; tive que fazer hora extra e tal; eu tava realmente exausto. Sei lá por quanto tempo eu dormi; mas, com certeza, foi bastante; sabe quando você dorme demais e parece que você não dormiu tudo? parece que você acorda ainda mais cansado. Dormi por mais tempo do que eu realmente precisava.
E aconteceu tanta coisa enquanto eu dormia.
Os gêmeos que minha mulher tava esperando nasceram. Ela teve que largar o serviço pra poder cuidar das crianças; acabou fazendo uns bicos vendendo um catálogo da Hermes e bijuterias. As crianças cresceram tão rápido! O piá – que Deus o tenha – foi baleado aos quatorze. Até não tenho dó porque ele devia; mexeu com o que não devia. Tenho pena do meu netinho que ficou sem pai. Esse mundo já é ruim, imagina se a gente não puder contar com nossos pais, com nossa família. A menina, por sua vez, ajudou a mãe aqui em casa até onde deu; terminou a faculdade e fugiu com um roqueiro pra Europa. Minha mulher, não sei bem onde é que tá. Nossa casa foi penhorada; o banco não quis aceitar nosso humilde pedido de desculpas. Meus amigos, pior ainda pra eu saber onde que tão.
Agora eu tô aqui, nesse lugar que eu não sei muito bem o que é, rodeado de velhos. Uma moça bem simpática me disse que ela já voltava com os remédios e que já, já a gente vai almoçar; ela disse que foi minha filha que me trouxe aqui e disse que viria me visitar. Se é verdade, não sei dizer com certeza. O fato é que me sinto bem mais cansado. Eu dormi bastante, mas não foi suficiente. Quanto tempo eu vou ter que dormir pra acordar tudo bem?

ela tentou tocar o céu e voou pelo menos uma vez.

LiEBEN

Estava bem frio. Aquela garoa fina incomodava. Uma tarde cinza de outono.
Com um olhar vago, Johan assistia o dia passar.
Estava sentado num daqueles bancos da fria rua XV. As pessoas, enroladas em seus cachecóis, agasalhados ao máximo, desfilavam em câmera lenta.
Ela não viria.
No seu colo, Johan segurava um buquê de flores. Ligara para ela, não obteve resposta; mandara-lhe e-mails; deixara-lhe recados.
Pela manhã, antes de ela sair para o trabalho, ele deixou um bilhete com o porteiro. Um pedido de desculpas. Nele, pedia para que ela viesse aqui, agora.
Sem perceber, tinha puxado as flores para mais perto de si; indefeso, abraçava as flores. Tinham um cheiro reconfortante. Tirou as luvas e começou a tocá-las, uma por uma.
Dentre elas, uma margarida laranja. Solitária em meio a rosas e espinhos. Suas pétalas eram as mais macias. Fizeram-no sentir-se sensível; percebeu-se vulnerável
Ela não viria.
Pôs de novo as luvas. Olhou em volta. Numa cafeteria, ali perto, via-se um casal eloqüente, gesticulavam e sorriam. Um casal de meia idade com um casal de filhos tomavam chocolate quente na mesa ao lado. Um senhor de barba bem cuidada lia seu jornal e fumava um fumacento cachimbo.
O mundo havia girado rápido demais para Johan; ele não conseguira acompanhar. E agora esperava em vão por alguém que temia nunca mais ver.
Ele, que só queria poder pedir desculpas e que sonhava em ser perdoado. Ele, que, embora tenha sido sensível o bastante para ter amado de todo o seu coração, não fora sensível o bastante para ser amado de volta.
Ela não viria.
Quantas horas se passaram até que ele se desse conta disso e achasse forças para ir embora?
Seus olhos lacrimejavam. Devido ao vento frio, talvez.
Ele tirou a margarida do buquê e levou consigo. Saiu em passos largos, rápidos e cambaleantes para um lugar que nem ele conhecia. Jogou no lixo o buquê e com ele o cartão de feliz dia das mães.


willian

RIS, MEXICANA ASA NEGRA

Há quanto tempo estou aqui? Não sei. Já tomei mais da metade dessa garrafa. Estou perdido aqui dentro; tranquei todas as portas. Meu raciocínio já perdeu velocidade; nem penso mais direito. Mas ainda penso em ti.
Estou cansado; devo ter andado quilômetros de um lado pro outro dentro dessa sala. Mas não estou mais ansioso. Eu esperava – em vão, penso agora – que as coisas mudassem – e rápido; só que agora eu sei que a situação saiu do meu controle.
Me sinto como se fosse morrer; ou já estou morto. Não sei o fim dessa história. Em minhas mãos, uma garrafa de tequila; não sei até onde chega meu autocontrole – até onde controlo minha sensatez e não começo a beber?
Eu sei que não consigo me controlar se eu beber demais; não tem segredos, perco meus valores morais e fico vulnerável. Tudo o que quis falar será falado.
Nas paredes, escrevi teu nome. Em azul. Ficas tão bonita de azul. Não entendo porque alguém pode dizer que o azul é uma cor triste; o mar, o céu, tu. A garrafa, pela metade, não me deixa mentir. Eu te abraço minha mexicana, e não sinto teus braços em meu redor. Sei que ris, mexicana asa negra, teu sarcasmo me comove.
Meio cheia; ou meio vazia? Tento preencher minha mente com qualquer tipo de raciocínio, qualquer coisa que me leve pra longe de ti; tu não estás aqui agora – e não quer estar. Mas esse dia vai chegar, eu espero.
Essa garrafa vazia me joga na cara que estou sozinho. A menos esse cara irônico que tenta metaforizar o óbvio e esse sujeito que finge entender de si mesmo – no mais, sou só esse velho caído, bêbado, sem razão em querer dizer qualquer coisa. E esse não sou eu; eu não estou aqui, portanto não estou aqui sozinho.
Quantas vezes vou ler teu nome na parede? Agora não cabe mais nenhum, eu o escrevi bem grande – em azul! Estavas tão bonita hoje.
Termino com reticências. Sei que não lerás o que quer que eu venha querer a dizer. Essa poesia vai ficar escondida no meio das outras, que querem dizer muito mais do que essa e terão a mesma atenção: um olhar desinteressado e um rumor de “depois eu leio”.
Vou destrancar a porta. Alguém me leva pro hospital.


willian

... e mais uma vez, sem perceber, eu, desnecessariamente, tinha pedido mesa pra dois.

O Espetáculo do Avesso

Já era tarde da noite; aos poucos o relógio chegava à meia noite.
Juquinha era um piazinho que tinha menos de dez anos.
Garoava.
A praça situava-se bem próximo do centro da cidade. Havia muitas árvores.
Juquinha estava sentado no chão, encostado na mureta de um dos canteiros de flores. O cabelo lhe escorria na cara. No seu colo, um diário; ele parara de escrever, a água borrava as palavras – palavras estas que talvez nem mesmo ele viesse a ler.
Na capa do diário lia-se ‘meus pecados’.
Na praça, Juquinha estava sozinho, mas nas ruas ao redor da praça haviam pessoas – várias delas. Todas estavam paradas, imóveis de costas para Juquinha. Algumas das pessoas usavam chapéus como os de Napoleão; outras, sapatos maiores do que os pés; havia ainda alguns que usavam enormes perucas coloridas – suas cabeças pareciam enormes palitos de fósforo.
Ao longe, se ouviam tiros. Explosões que ecoavam nos prédios da vizinhança. Brilhos no céu, que, devido à chuva, lembravam relâmpagos.
Juquinha pegar os gizes coloridos e começava a escrever com a mão esquerda. Como Anne Frank, Juquinha se abraçava ao mundo de seus pecados.
Como vagalumes, as balas cruzavam veloz e ferozmente a praça; de todos os lados, mas sem atingir as coloridas estátuas vivas do outro lado da rua. Zuniam por sobre a cabeça de Juquinha.
À meia noite a chuva cessara, as estrelas brilhavam no céu; talvez uma lua ousasse aparecer. Diminuiu-se o volume do som dos tiros e as explosões pareciam estar a mais de cem milhas.
Sem balas cruzando a praça e zunindo sobre sua cabeça, Juquinha pôs-se em pé.
Como se um botão tivesse sido apertado, as pessoas começaram a se mexer: aleatoriamente. Andavam em círculos, procuravam coisas pelo chão; um olhava no céu com a mão no queixo, como se sua atitude fizesse sentido; um deles, com uma roupa listrada em branco e preto, equilibrava uma vassoura nos dedos.
Ao fim da décima segunda badalada, Juquinha cai no chão. Ele é atingido por uma última perdida e solitária bala, que com sua luz verde zuniu por toda praça antes de atingi-lo. O grito de Juquinha ecoa nos prédios da vizinhança.
O diário, caído no chão, será esquecido por todo o sempre.
Mas Juquinha não morreu!
Ele levanta-se, com passos cambaleantes atravessa a rua e se junta aos outros transeuntes. Seu olhar é vazio, sua maquiagem é branca e há um sorriso pintado em vermelho em volta de sua boca. Seu nariz agora é uma bola vermelha.




willian
- Poxa! Por um momento me relampeou um raio de esperança em querer mudar esse mundo!
- De qual mundo você tá falando?
nenhuma palavra pode traduzir o que estou sentindo agora; talvez não seja um sentimento – só mais um sentimento –, talvez seja um pensamento sobre algo que jamais tentei pensar.
talvez eu tenha pensado demais em você – pois, sim, com certeza é pra você que escrevo essas palavras. escrevo, talvez, só para não deixar em branco; isso são pensamentos livres, desconexos, e que não querem chegar a lugar algum. eu queria que você lesse isso – eu te vejo em meus pensamentos agora. eu ainda não me esqueci de você; afinal, por que esqueceria? você está sempre aí, indo e vindo, mesmo sem querer, ou perceber que está sendo sentido, observado, e, sim, eu gosto de saber que está aí, mesmo que não seja por mim, mesmo que eu te veja e você não...
veja tudo isso como um imenso sonho; o mais variado dos sonhos e que, de certa forma, não podemos controlar, é um sonho que vai de um lindo arco-íris ao mais tenebroso pesadelo. a última coisa que se pode querer nesse sonho é acordar – aí tudo acaba e tudo o que foi construído desaba e eis que tudo tem um fim.
pensamentos que se apagam; vozes que ainda lembram o teu nome. apagam-se as luzes, ascende-se a alma. desejos vêm e vão, mas o dia não vai voltar.
agora ainda posso brincar com a água, pelo menos enquanto meus pés ainda tocam o chão – mas aonde isso vai me levar? amanhã cedo, quando eu acordar, horas não aproveitadas terão passado. a cada segundo meu relógio está mais perto de parar. hoje a Terra completou um giro a menos na contagem regressiva para o último. mas aonde eu quero chegar?! bastava dizer: CARPE DIEM – aproveita o teu dia.
e os túneis construídos em castelos de areia? de que valeu meu eu te amo? não me diga que foi dito em vão; ou que, talvez, em vão ele foi dito. pode ser que seja só uma maneira de dizer que enquanto houve um começo, há de haver um fim. há de haver luz no fim do túnel; há de haver fim na luz do túnel.
por um momento, a atenção de meu pensamento desviou-se de você; senti como se você estivesse se distanciando; não me tardei a pensar que fosse proposital, que, por algum motivo, sei lá eu qual, você estivesse querendo me ver longe de você.
me senti sozinho agora.


texto velho. não coloquei data no manuscrito; não sei de quando é. pela letra, é de uns quatro anos atrás.

Sem muito ânimo ela dirigia de volta pra casa. Era um fim de tarde de um 31 de dezembro qualquer. Como todo bom fim de tarde de verão, chovera. A tempestade já passara, mas a chuva não cessara por completo; ainda caíam algumas gotas. As gotas no vidro do carro, as luzes da cidade se acendendo, as luzes dos carros, brancas, vermelhas e as amarelas que piscavam; isso trazia um sentimento nostálgico. Ela se lembrava dos tempos de menina quando ela, sentada no banco de trás, com os olhos cheios de lágrimas, reclamava de alguma coisa para sua mãe; ela se lembrou que gostava do brilho das luzes em seus cílios, lembrava-se de como as luzes se esticavam, de como pareciam enormes estrelas brilhantes. Mas, agora, quem dirigia o carro não era o papai e não havia mamãe no banco do passageiro para com quem reclamar. Não havia mais ninguém no carro. Não tinha com quem comentar o quanto estava bonita a decoração natalina daquela casa na esquina do sinaleiro. Ela andara por vários bairros da cidade naquele mês para ver as casas decoradas – comparava-as com a decoração que sua mãe fazia; mas isso não tem a mesma graça quando se tem que fazer sozinha – não é como chegar em casa, ficar só de calcinha e camiseta, ligar o som bem alto e andar pela casa cantando, sem se preocupar com o tom ou mesmo com as letras em inglês. Era o que ela ia fazer enquanto punha o champanhe pra gelar. Antes só, pensou, do que mal acompanhada.

-- E quem será que ganhou a São Silvestre? – disse ela em voz alta para si mesma como se tentasse mudar o rumo da conversa. Nos seus cílios, as luzes esticadas pareciam enormes estrelas.



willian
... e ela, ironicamente, se chamava Linda.

foi real

Eu estava deitado no chão, as pedras estavam geladas, mas não geladas demais; estava uma temperatura ideal, nem calor nem frio. Eu estava sozinho. No céu, as estrelas brilhavam para mim, iluminavam sutilmente o pátio à minha volta; nenhuma nuvem no céu.
Bem de longe eu ouvia uma musica; só eu a ouvia. Mesmo não tendo ninguém mais por perto para ouvi-la, eu sabia que ela tocava para mim. Essa música me tocava por dentro; sua melodia me enchia a alma; a letra dizia aquilo que eu queria ouvir.
Um sentimento puro invadia profundamente o meu corpo. Era real, embora não parecesse e ainda me custe a acreditar. Não era um sentimento comum, eu não o sentia com o coração ou com a alma, como todos os outros antes: era mais profundo que isso, aquele sentimento abraçava-me nos ossos.
Aos poucos fui sendo tomado por uma onda de calor que me deixava mais leve. De olhos fechados eu deixava meus pensamentos me levarem aonde eles quisessem; e eles me levaram para um lugar bom, onde eu realmente me senti bem. Era como viajar no espaço, por um buraco negro, por uma maquina do tempo, por um túnel de cores.
Abri os olhos, eu não estava mais no chão. Havia mais algumas pessoas comigo – milhares delas, talvez --; eu não estava mais sozinho. Meus pés não tocavam o chão; eu e mais três pessoas, de mãos dadas, flutuávamos a alguns metros do chão.
Eu estava num lugar perfeito, com pessoas perfeitas. Eu estava exatamente onde eu sempre quis estar. Foi um sonho. Foi perfeito. Era real, embora não parecesse e ainda me custe a acreditar.



willian

-- não seria melhor se fingíssemos que está tudo bem?

-- e não está tudo bem?

as asas do anjo

Meu anjo da guarda estava morto. Ele, bravamente, lutou junto comigo, do meu lado, até o último momento, mas perdemos a batalha. Suas asas foram arrancadas; ele estava todo ensangüentado. Eu estava caída ao seu lado; respirar me doía, um profundo corte de espada sangrava-me no peito. Eu ainda segurava sua mão enquanto tentava me convencer do que acabara de acontecer.
No fundo, de certa forma, eu sabia que cedo ou tarde nos separaríamos, mas era impossível saber quando. Como? Passáramos por provações piores e agora perdíamos. Havia uma expressão serena no seu rosto; eu chorava, eu não queria sair do seu lado, eu não queria que ele me abandonasse.
Não sei quanto tempo fiquei deitada ao seu lado, ainda de mãos dadas. O corte no meu peito cicatrizava. De bem longe eu ouvia meu nome. Senti que o vazio dentro de mim se preenchia. Havia algo mágico naquela voz que me chamava.
Na minha frente surgia a figura de um belo anjo, tão forte e imponente quanto o meu, que morrera. Sentei-me no chão apoiada no braço, que doía; o anjo me olhava nos olhos; tive medo. Ele começou a falar numa língua que eu desconhecia; tentei explicar isso a ele, mas ele não me deu ouvidos. Ele me explicava o que ele viera fazer, pensei; seu tom de voz era de quem sabia perfeitamente tudo sobre o que estava falando; sua voz inspirava confiança.
Quando ele parou de falar, pus-me a pensar. Sem entender uma palavra, eu entendi no que consistia sua missão: ele estava lá por mim. E eu tinha que seguir com ele. Ele estendeu sua mão, ia me ajudar a levantar. Hesitei.
Minha mão direita ainda segurava a mão do meu anjo da guarda morto; eu não ia conseguir deixa-lo.
Meu hesitar durava muito tempo.
Eu não podia solta-lo, minha existência dependia da sua; se eu soltasse sua mão, assim que eu me pusesse em pé meu corpo desmontaria, eu me tornaria um amontoado de pó.
-- Não se preocupe com ele – agora eu conseguia entender o que o anjo à minha frente dizia. – Ele não foi o primeiro e eu não serei seu último anjo.
Eu sabia que, se eu me apegasse ao morto, eu também morreria. Eu sabia que, se eu esperasse tempo demais, esse meu novo anjo me deixaria. Eu sabia que, mesmo que essa não fosse a melhor decisão, eu tinha que seguir com ele, mesmo que logo eu morresse; mas com ele eu poderia ter esperanças.
Apoiei-me melhor no chão e, sem soltar a mão do morto, estendi minha mão esquerda para o anjo que sorria à minha frente. Precisei me esforçar para alcançar sua mão, que parecia estar tão distante. Alcancei. Sua mão estava quente, enquanto a gelada à minha direita.
Foi com muito pesar que soltei a mão do meu velho anjo e, com ajuda do novo, pus-me em pé. Meu corpo não desmontou.
Ao me distanciar do morto, vi que ele respirava. Olhei assustada para o anjo que segurava minha mão. Ele apenas sorriu.
Quando olhei de volta, vi que meu velho anjo não estava sozinho. Uma menina bem pequena com enormes asas brancas curava suas feridas; ele abrira os olhos. Ele estava bem. Asas cresciam novamente em suas costas.
-- Tudo vai ficar bem – disse meu anjo apertando minha mão que ele segurava. – Tudo vai ficar bem.
Senti-me livre. Eu e meu novo anjo abrimos nossas asas e, de mãos dadas, voamos pra bem longe dali. E ainda voamos.


willian
Ônibus lotado. Todos, surdos, com seus fones de ouvido. Ninguém ouviu o ultimo discurso do homem bomba.

O verão, o amável verão.

Era o fim de uma útil segunda-feira, na qual todos muito preguiçosos chegavam ao fim do cansativo dia de trabalho; timidamente o sol se punha depois de deixar os trabalhadores preguiçosos tornando seu trabalho cansativo; estava muito calor.
Eis que do nada surgem nuvens negras por todos os lados. As pessoas que enchiam as ruas subestimavam o que estava por vir. De um segundo pro outro todos se puseram a correr. Vendedores de guarda-chuva brotavam do bueiro. Pessoas encharcadas em toda parte. Os carros andavam mais lentos, não se via nada. Enormes pedras de granizo destruíam janelas e derrubavam telhados. O vento assustava: arrancava arvores, zunia, quebrava guarda-chuvas e não parava de zunir. Dos bueiros já não saíam guarda-chuvas; o volume de água que caía era muito maior do que eles agüentariam. As galerias subterrâneas não davam conta de tanta água que, junto com as águas do esgoto, começaram a encher as ruas. Carros eram arrastados pela forte correnteza da enchente; lojas eram tomadas pela água. As pessoas não tinham onde se esconder. Mais tarde nos telejornais se veria o número de mortos e o saldo da destruição daquele temporal que durou dez minutos.
No mesmo ímpeto que começara, a chuva parou. E o céu brilhou num tom esverdeado para sarcasticamente iluminar os que perderam alguma coisa com a chuva, principalmente os que perderam tudo.
É o verão, o amável verão.


willian

Ela estava tão bonita hoje. Apesar do nariz torto e do olho que lhe faltava.

tudo isso é só mais um amontoado de letras

Havia ali um grande grupo de pessoas, homens e mulheres, novos e velhos, todos vestidos de maneiras mais estranhas, mas sem falar. No chão havia um montão de grandes dados, que tinham letras nas seis faces. Aquelas pessoas jogavam continuamente os dados e depois observavam-nos fixamente durante muito tempo.
— Que estão fazendo?, murmurou Bastian. Que jogo é aquele? Como se chama?
— É o jogo do acaso, respondeu Argax. Acenou aos jogadores e gritou: Muito bem, meus filhos! Continuem! Não desistam!
Depois voltou-se outra vez para Bastian e murmurou-lhe ao ouvido:
— Já não são capazes de contar histórias. Esqueceram a fala. Por isso lhes inventei esse jogo. Para passar o tempo, como você vê. E é muito simples. Pensando bem, temos de concordar que, no fundo, todas as histórias do mundo se compõem apenas de vinte e seis letras. As letras sempre as mesmas, só a sua combinação varia. Com as letras formam-se palavras, com as palavras frases, com as frases capítulos e com os capítulos histórias. Olhe o que aquilo deu!
Bastian leu:
HGIKLOPFMWEYVXQ
YXCVBNMASDFGHJKLOA
QWERTZUIOPU
ASDFGHJKLOA
MNBVCXYLKJHGFDSA
UPOIUZTREWQAS
QWERTZUIOPUASDF
YXCVBNMLKJ
QWERTZUIOPU
ASDFGHJKLAYXC
UPOIUZTREWQ
AOLKJHGFDSAMNBV
GKHDSRZIP
QETUOUS FHKO
YCBMWRZIP
ARCGUNIKYO
QWERTZUIOPUASD
MNBVCXYASD
LKJUONGREFGHL
— Sim, gargalhou Argax, é quase sempre assim. Mas quando se joga este jogo sem parar durante muito tempo, durante anos, algumas vezes formam-se palavras por acaso. Podem não ser muito significativas, mas são palavras. Por exemplo, "espinafre amarelo" ou "salsicha-escova" ou "pintapescoços". Porém, se se continua a jogar este jogo durante centenas, milhares ou centenas de milhares de anos, é provável que alguma vez, por acaso, se obtenha um poema. E se se jogar eternamente, terão de surgir todas as poesias e todas as histórias do mundo, e também todas as histórias das histórias, e até mesmo esta história em que estamos os dois conversando. É lógico, não acha?



in A Historia Sem Fim – Michael Ende.
...

Ele é um amontoado de letras. E ele não é nem uma palavra. Ele é o resultado do arremesso de vários dados com letras no lugar de números. Ele é um amontoado de letras que não formam palavras.
Seu nome é algo impronunciável – também foi escolhido aleatoriamente. E, como nos dados com letras há maiores chances de se caírem consoantes em vez de vogais, no seu nome não tem uma sequer vogal. Portanto, embora ele tenha tentado, não é possível que seu nome seja um anagrama de alguma palavra com significado. A menos, é claro, que seu nome seja uma sigla, ou as iniciais das palavras da frase que defina o que ele seja.
Ele se sentia completamente perdido. Ele não só não sabia onde estava, mas, o que era pior: ele não sabia onde queria ir, e, muito menos, onde ele deveria ir. Ele sabia que estava sem proteção; estava sem seu anjo da guarda. Ele, ao contrário das outras crianças, não tinha sua própria fada.
É, na realidade, impossível dizer se ele existe. Ele não passa de um amontoado de letras que não formam nem uma palavra, sem significado, portanto. Se ele é letras e mais letras, ele pode estar – e está – em qualquer lugar, em todo lugar e em lugar nenhum. Você pode achar pedaços dele numa bula de remédio, numa receita de bolo ou quem sabe até em um texto sem sentido que você lê despretensiosamente. Sua existência esta em um lugar escondido sob o mundo real; um lugar que não existe e que você pode ir.
No entanto, ele sabia que seu significado estava em algum lugar. O sábio lhe dissera certa vez que toda palavra tem um sentido; aquele amontoado de letras devia ser uma palavra. Ele sabia também que não seria ele que escolheria esse sentido; são as outras pessoas que dão sentido às palavras; o sentido não está na seqüência de letras que a forma, mas na cabeça das pessoas que a lêem. Talvez ele seja um substantivo, um adjetivo ou, ainda, um verbo; é o sentido que o um amontoado de letras como uma palavra pode ter.
E ele continua procurando esse sentido em toda parte. Nem sempre está claro; às vezes, é preciso ir além do óbvio; na maioria das vezes, pode estar nas entrelinhas. É como aquela coisa que você procura vorazmente em toda parte, e, mesmo assim, pode ser que você não o ache


willian