Depoimento

Lembro uma vez, logo que comecei a trabalhar com caminhão, eu tive esse sonho estranho. Ainda lembro muito bem dele, os detalhes, o cheiro, os barulhos tudo. Ainda me arrepio, só de lembrar.
Sonhei que eu tava nessa estrada; era uma reta de alguns quilômetros, sumia na vista; o asfalto lisinho. Eu dirigia essa carreta; eu sabia na minha cabeça que ela tava carregada. E tava tudo tranquilo, tinha dormido bem, tava prestando atenção. A uns noventa por hora, cem talvez.
Do nada, numa piscada, eu tava nessa rua movimentada, com criança de tudo que lado; correndo, andando, paradas… Meu primeiro instinto foi tentar reduzir a velocidade, mas o breque tava solto, não obedecia; parecia até que o caminhão corria cada vez mais. E aquela criançada vindo pro meio da rua e saindo, correndo, outras devagar.
Aí tudo aconteceu em câmera lenta.

Eu vi tudo e ouvi tudo e senti tudo.

Consegui parar o caminhão e voltei pra ver. No chão, vários pedaços de carne do que parecia ser frango e um cheiro forte de feijão azedo – dava vontade de vomitar. Não tinha mais criança, nem fora da rua. Mas eu ainda ouvia o barulho delas, brincando, correndo, se divertindo.
Eu fico pensando como seria atropelar alguém. Me pelo de medo! Será que bate essa frieza assim e a gente vê a pessoa como se fosse só um pedaço de carne?
Até hoje isso me incomoda.
Pensei até em largar a boleia.
No fim, só passei a prestar mais atenção no trânsito; me cuidar mais. E frango eu parei de comer. Não posso nem sentir o cheiro. Feijão ainda como. Normal.

Antes

Depois de uns cinco anos fora, ela estava visitando a cidade em que conheceu o pai das crianças. Já iam fácil uns quinze anos desde a primeira vez que ela pôs os pés naquelas calçadas.

A cidade parecia mais suja e bagunçada que antes. Não tinha tanto carra nas ruas naquela época. Agora era barulhento e fedia.

Resolveu passar naquele velho café perto da praça da igreja. Vendiam uma torta de banana que era sensacional. O pessoal que trabalhava lá era sempre bastante atencioso e prestativo, mesmo quando estava lotado. E os sucos que eles faziam eram dos melhores.

Algumas coisas logo na entrada pareciam diferentes. Na cabeça dela, o lugar era um pouco maior. Lá no fundo, atrás do balcão uma senhora levantou vagarosa e despretensiosamente os olhos do jornal e ficou olhando a cliente entrar.

Ela entrou, escolheu uma mesa, sentou-se e abriu o cardápio. De uma porta nos fundos saiu o garçom. Era o mesmo de antes – ela o reconheceu. Já está um homem! – ele devia estar no ensino médio à época.

Vinícius era o nome dele. Ela sorriu ao se lembrar. 

Antes de ele chegar na mesa, ela passou os olhos pela lista de sobremesas. Não tinha mais a torta de banana? O suco de laranja com leite ainda estava lá.

Quando o piá chegou na mesa ela o cumprimentou efusivamente e com um largo sorriso. A ele bastou perguntar se ela queria fazer o pedido.

Frustrada com a recepção, ela pergunta da torta. Já não fazem mais. Pediu outra sobremesa aleatória e pediu o suco.

Antes, quando ela tinha um intervalo muito grande entre seus compromissos que não compensava ir pra casa, ela ia nesse café. Antes, tinha uma televisão – não tem mais.

Antes, quem ficava atrás do balcão era o Seu Olavo. Cogitou perguntar dele, mas decidiu não querer tocar no assunto – vai que o velho morreu e sua memória ainda traz tristezas. Mas, se morreu, do que que ele morreu?

O suco chegou. Era ao mesmo tempo doce demais e azedo demais; tinha muito leite também. O alfajor era ok; mas ela não tinha criado expectativas sobre ele. 

Ela decidiu não ficar muito tempo ali dentro. Resolveu logo levantar e ir embora.

A senhora do caixa até que foi simpática; ao ver que ela tinha se levantado e se aproximava do caixa, a senhora até esboçou um sorriso.

Foi difícil enteder quanto tinha ficado a conta; a senhora falava com sotaque de alguma língua de algum pais bem longe – a Iugoslávia, talvez.

Quando saía, ela percebeu a sensação de ter visitado um lugar completamente estranho, mas ainda com aquela sensação de pertencimento e um quê de saudade e nostalgia. Pensou em voltar ano que vem pra ter uma segunda nova opinião.

Assim que fechou a porta atrás de si, ela lembrou: Vítor. O nome do piá era Vítor.

Não teríamos nos dado tão bem assim se não fosse por aquele orégano no dente

Amém!

[…] 'Till human voices wake us, and we drown
Eliot

De propósito ele havia mandado pintar de branco todas as paredes daquele cômodo – inclusive a porta pelo lado de dentro. Como ali não havia janelas, estava criada a perfeita sensação de isolamento. Sempre quando sentia a vontade de sentir sua liberdade, descia as escadas e trancava a porta atrás de si. Ali dentro, ao mesmo tempo em que se sentia enclausurado, se sentia sem horizontes delimitadores.
Anos antes quando a sua vida o havia abandonado, ele a deixou para trás e foi morar naquele barco; sua vizinhança passou a ser o mar e seu temperamento instável. Várias vezes seguiu sem rumo cortejado de perto por caravanas de golfinhos ou baleias que zombavam de sua submissão ao mar velho e rabugento que lhe maneja as rédeas. Os companheiros cetáceos sempre enfatizavam seus insignificantes tamanhos em relação à imensidão daquele gigante deserto molhado.
Naquele dia ele assistiu o nascer do sol com a mesma emoção de sua infância. Em sua garganta o nó de ter de aportar mais uma vez. Suas lágrimas haviam sido secas e salgadas, mas naquela manhã de muitas nuvens ele chorou como a criança que tinha feito questão de deixar de ser.
As paredes já havia tempos não eram mais a mesma pureza. Elas haviam se tornado o diário de viagem e nelas estavam registradas as intempéries e os dias de sol; listas de nomes, listas de sentimentos, listas de compras. O chão estava sujo com a areia das praias e restos de terra que ficavam sob os sapatos nas poucas vezes em que ousou pisar em solo firme.
Dia a dia ele usava pedaços dos gizes de cera jogados no chão do seu quarto da loucura para registrar o passar do tempo. Em vários espaços de toda a parede estavam incontáveis grupos de quatro traços cortados no meio por um maior. Ele admitia que já não fazia ideia do tempo que havia passado longe de pessoas – das pessoas. Já não lembrava mais se cada risco representava um dia ou uma hora. Ou um sentimento.
Aquele era dia de aportar. Pela primeira vez depois de todo aquele tempo ia voltar ao porto de onde havia partido. No fundo ele se sentia triste e quando se deu conta disso não tentou esconder de si mesmo. Ele sabia que voltaria ao barco trazendo a terra de sua sepultura.

Quanto mais tempo passava longe mais a cidade dos ratos se tornava suja e caótica. O vento do mar carregava pelas ruas estreitas os papéis jogados no chão. O céu era cinza e o vento era frio e os ratos imersos dentro de sua introspectividade se encolhiam e andavam rápidos e cabisbaixos. Ele se sentia perdido no lugar onde viveu maior parte de sua vida. Ele sabia, afinal, que o que havia deixado para trás não era mais parte de si. Menos ainda que antes, ele não se sentia como um deles.
— Traga solo suficiente para me enterrar. Sim, por favor, embrulhe para viagem.
Era ao mesmo tempo nostálgico e amargo revisitar aquelas vielas. Aqueles transeuntes não eram mais seus amores – ele tinha deixado de ser um rato e se tornado um peixe! A cidade já não o atraía; era o mar e sua não companhia seu novo e único amigo.
Caminhando por aquelas ruas povoadas de ratos que se esbarravam e se trombavam sem se notar, ele passeava por seu passado, passava pelas casas, que, como corações adolescentes, o esperavam de volta de braços abertos. Ele não se sentia tentado em ficar; o que ele havia se tornado não o permitia gostar daquele lugar – se ao menos fosse possível levá-lo consigo para o barco...

Deixou a cidade com a mesma opacidade com que entrou – ninguém o viu, ninguém vê. Suas pegadas não perduraram por muito tempo, a multidão logo as fez se mesclar com as tantas outras. Não fez questão de apagar suas pegadas, mas precisou ter a certeza de que ninguém o estava seguindo.
De volta ao barco, de volta ao mar, içou as velas e apontou para o sul e seguiu seu caminho; chegará no destino que ainda não sabe qual é, apenas se os ventos o permitirem; não é a vontade dele que está em jogo.
No quarto abaixo das escadas, riscou mais um traço e pôs-se a escrever seu epitáfio. Era, na verdade, ele sabia, um capricho; seu objetivo não era mostrar para quem quer que fosse. Naquele quarto ele não queria que ninguém entrasse, por isso se assegurou de aquela porta fechar e de tranca-la e de retirar da fechadura a chave. E ali dentro mais uma vez repensaria sua existência [...]

sem gás

Estava uma tarde muito quente aquele dia   e eu na rua   O termômetro lá de casa marcava 27 graus  As pessoas se arrastavam feito zumbis ladeira abaixo  Não tinha quase ninguém na rua   nem carros  Entrei no armazém do seu Olavo  pedi um copo de água   Com gás ou sen gás?   Da torneira mesmo   Então você não vai pagar    Aposto na sua caridade   o senhor sempre foi uma pessoa boa   Ele aceitou o elogio mas eu vi que ele relutou   Nesse calor a água da torneira vai estar quente  Tudo bem seu Olavo  pode ser da geladeira  eu pago   Ele sorriu Com gás ou sem gás?   Eu quero um guaraná   Tomei tudo ali mesmo no balcão   Paguei e saí   Não me lembro muito bem   estava uma tarde muito quente aquele dia

Pelúcia

Fazia frio, era uma daquelas tardes cinza de maio. Ela sentada na areia quase nua encarava o vaivém inquieto das ondas deixando o vento lhe acariciar o rosto com seu cabelo.
Como uma criança que cobre a cabeça para que o monstro não a veja, ela fugia de si mesma e procurava abrigo ali, sozinha.

meus pecados

— Me perdoe, padre, porque pequei.
Na noite anterior eu tinha ficado o dia todo fora e cheguei em casa mais tarde que o habitual. Eu não vinha dormindo nem comendo direito nos últimos dias e pra piorar passei no bar antes de finalmente ir pra casa. Eu estava tonto e com dor de cabeça, por isso na hora nem acreditei no que estava acontecendo. Eu me sentia dormindo. Como de costume, entrei, passei pela sala e fui direto para o meu quarto. Do corredor vi que a luz do meu quarto estava acesa; nem me liguei muito nisso na hora já que eu podia tê-la deixado acesa pela manhã. Deitado na minha cama havia um homem. De bruços, bem vestido, de sapatos, de paletó; não conseguia ver seu rosto.
Senti naquela hora uma das sensações mais estranhas que já senti; era uma mistura de surpresa, com apreensão e curiosidade; era como se algo me dissesse pra não chegar perto e deixar aquele homem ali mesmo e ir embora. Hesitei, admito, e saí do quarto. Me joguei de qualquer jeito no sofá da sala, atordoado e chocado — pela bebida, pensei na hora, eu devia ter bebido demais. O que me chocava era a fisionomia daquele sujeito; pouquíssimas vezes em fotos ou em vídeos eu tinha me visto de costas, sabia que eu não seria de capaz de me reconhecer de algum jeito que não pelo rosto; afinal nunca enxergamos nossos próprios trejeitos, não é mesmo? Seja como for, eu sabia que aquele cara no meu quarto era eu!
Nunca fui católico, e sempre fiz questão de não ficar contando as merdas que eu faço pra todo mundo. Mas dessa vez me senti impelido e forçado a contar. Eu estava sendo corroído por dentro. Mais um pouco e quem morria era eu.
Estava dentro de uma daquelas cabines de confissão e via o padre, velho, por detrás de uma gradezinha de madeira; eu não via o rosto dele e fiquei mais à vontade quando passei a pensar que ele também não me via. Ali dentro a sensação claustrofóbica era aterrorizante; acho que as pessoas ali confessam até o que não fizeram, como numa câmara de tortura.
Sim, não consegui aceitar aquilo naturalmente. Só é parecido, pensei; quem sabe era algum irmão perdido, primo, parente, sei lá! Quem sabe seja dada a hora de parar com as sessões de terapia e me mandar pro psiquiatra. Ou era aquele a minha persona personificada ali pra que eu conseguisse finalmente entender meus próprios desejos e medos e inseguranças.
Me levantei do divã e saí do confessionário; eu tinha desistido de contar minha história, pra quem quer que fosse. O velho também levantou e me seguiu; pedi que ele me deixasse e ele, com aquela voz desnecessariamente calma demais, me perguntou o que me afligia.
— Eu matei aquele homem, caralho!
Ele pedia que eu me acalmasse e que eu continuasse contando; e começou a me tratar como uma criança. Eu via o meu pai, com seus sermões baratos, nos quais nem ele acredita, ali em pé na minha frente. Hipócrita e ridículo!
Sentei no chão da sala e ali, inerte, fiquei observado um ponto qualquer na parede, absorto, tonto, incrédulo, planejando o que eu deveria fazer. Agora parece que o que eu sentia era medo; eu não queria me encontrar comigo mesmo; não tinha a moral de me olhar nos olhos e deixar que alguém que me conhece como me conheço me visse.
Antes que eu pudesse decidir qualquer coisa, ele veio até mim. Ele veio até a sala, sem saber da minha presença; ouvi ele vindo, fiquei em pé e o esperei. Quando ele me viu, vi estampado em seu rosto tudo aquilo que senti quando o vi na minha cama. Eu me sentia capaz de ler seu pensamento; era familiar, claro e óbvio. Seus olhos tremeram e ele desviou o olhar procurando proteção. Estranhei, mas eu sabia o que ele estava fazendo. Mas esperei.
Como não conseguiu achar nada ali na sala que pudesse ser usado como arma contra mim, ele veio pra cima de mim, pra me bater, de mãos limpas, na porrada! Ele era forte — tanto quanto eu — e eu ainda estava bêbado. Brigamos ali na sala; acabei cheio de hematomas e com um corte no lábio. Parecia claro para nós dois que não podíamos co-existir, que só um de nós poderia sobreviver — por mais absurdo que isso soe pra qualquer um agora — naquele momento era essa a regra. Depois de nos esmurrearmos no chão, consegui bater sua cabeça no chão e atordoá-lo. Bati em seu nariz várias vezes até que ele entendesse que era eu quem estava no controle. Como um monstro irracional, continuei batendo nele mesmo depois de tê-lo feito sangrar. Debruçado sobre ele, eu lhe dava socos com as duas mãos, mesmo depois de vê-lo inconsciente. Eu batia sua cabeça no chão e só parei depois de ter me dado conta de que ele estava morto.
Não me orgulho disso; mas ainda acho que fiz o que tinha que ser feito; embora se me perguntarem não vou admitir. Tanto que escondi todos os vestígios. Me livrei do corpo, apaguei todos os seus rastros — recolhi minuciosamente cada gota do sangue que derramamos. Mas parece que, ainda assim, o cheiro de morte ainda está por toda a parte. E tenho a impressão que todos que entram lá podem sentir.
Sei que moralmente qualquer meia dúzia de pílulas de ave-maria já me curam, mesmo eu não tendo nenhuma doença pra ser curada. Só o que eu precisava era vomitar e já fiquei bem — mas com a sensação de que outros mais daquele virão e que nas próximas vezes talvez o morto seja eu

Adeus.

Naquele dia ele levantou mais cedo que o habitual. Era sábado. Fazia um dia calmo, preguiçoso, com um solzinho morno e poucas nuvens no céu. Nem os pássaros pareciam querer levantar. Ele nem precisou de relógio despertador; depois de tanto tempo acordando cedo seu relógio biológico já tinha há muito se acostumado com essa rotina.
Ele já sabia quando deitou na cama na noite anterior que aquela seria a última vez que dormia ali. Ele estava cansado já, não via a hora de sair de lá. Nunca se deu bem com esse negócio de dormir em cama de hotel; e ele sempre dispensou toda aquela mordomia. Por isso, fazia questão de em toda as manhãs logo ao se levantar arrumar sua cama.
Procurou nas malas jogadas aos pés da cama algo para vestir. Enquanto procurava lembrava de quanto tempo que não saía para comprar roupas novas; aquelas tinham todas sido bem usadas, bastante repetidas. No armário ele tinha deixado reservado o fraque — não que ele achasse que fosse em algum momento sentir a necessidade de usa-lo, mas alguém, ele sabia, ia acabar o convencendo de que suas roupas velhas e surradas não eram formais o bastante.
Separou o fraque e jogou-o sobre a cama impecavelmente arrumada. Procurou algo para beber no frigobar; nunca bebia o que lhe deixavam lá, nem as cortesias — ele sempre se sentiu simples demais para toda essa sofisticação. Mas, como essa era uma manhã diferente, se convenceu a aceitar uma cerveja, só uma lata.
Bebia enquanto se arrumava e pensava em todas as preocupações, que o tinham deixado de cabelo branco, que muitas vezes não o tinham deixado dormir. Todas elas pareciam agora cada vez mais distantes. Essa manhã de sábado era o início de seu primeiro dia de aposentadoria. De agora em diante suas preocupações serão outras, bem menores; suas motivações serão outras, bem melhores. Seus colegas de trabalho agora serão turistas no Caribe ou na Malásia. Embora apreensivo e preocupado, ele se sentia mais leve e feliz.
Antes de sair passou em frente ao espelho e não viu as rugas com que já estava acostumado, nem as olheiras, nem os cabelos brancos. Sentia-se jovem e vivo de novo.
Como as crianças deviam estar ainda dormindo preferiu descer e deixar um recado na recepção. Descia as escadas calmamente, contando os passos; sem as malas, que decidiu deixar para trás.
Na recepção foi avisado que o táxi já lhe esperava lá fora. Quando perguntado se queria deixar um recado para os que ficavam, respondeu que não seria necessário. Eu já lhes disse tudo que importava, pensou.
E foi embora. E antes de sair relembrou e sentiu tudo que tinha vivido ali. Vou sentir saudade.

Requiem

Com todo o peso nas costas, entrarei pela porta dos fundos, procurarei a fileira J e me sentarei no assento 17. O silêncio já escuro daquela sala pesará ainda mais; a partir desse momento, me sentirei sem passado, sem alma. Se antes as feridas não doíam era porque não as via; mas na hora certa saberei saber que elas já estão ali há muito tempo.

A sala de cinema estava completamente vazia; ligar o projetor ali era um desperdício; deixar os grandes poetas silenciados enjaulados dentro de seus livros é o maior pecado que o homem pode cometer. Se dependesse apenas de mim aquela sessão para ninguém jamais aconteceria.

Antes do terceiro apito, me deixarei levar pelo barulho da pipoca quebrando entre meus dentes sob a força do meu maxilar. Sentirei aquele sabor morno, que me ajudará a apagar o mundo lá de fora antes de me concentrar no mundo novo apresentado a cada peça, para que eu esqueça minhas dores e passe a sentir as dores de outrem.

No palco eu me sinto empolgada ansiosa pelo início... Antes do abrir das cortinas já posso sentir a ansiedade compartilhada de cada um dos corações aflitos sentados na plateia. No espetáculo de hoje não vemos leões nem o globo da morte nem nada que nenhum homem comum não tenha já vivido. O papel é escrito especialmente para mim e trata da angústia de ser humano.

Inseri a fita cassete e com o controle remoto dei o play. Um filme de toda minha infância passou diante dos meus olhos. Em meio à névoa discernia os rostos da professora que me mostrava os primeiros passos no caminho das letras. Via também as árvores na beira da estrada passando rápido demais não deixando ser contadas enquanto viajávamos para as festas de fim de ano. Era uma pena que ninguém mais compartilhasse dessas mesmas memórias. Me senti único e por isso sozinho.

A projeção holográfica que passarão a apresentar será pobre; as figuras parecerão ocas e sem vida; serão planas como folhas de papel e azuladas como a luz que sai da tv. Não haverá legendas nem programa nem chaves de interpretação; serão apenas sons dissonantes, ideias desconexas, fantasias alegóricas ininteligíveis e frias. Tudo parecerá vago. Eu já tinha sido alguém para poder ter me tornado apenas uma lembrança daquele jeito.

É como ser vaiada ver a plateia vazia. É nauseante ter que enganar a mim mesma fingindo ser uma outra pessoa apenas para me convencer e a ninguém mais. Enquanto a alegria é compartilhável e desejável, a dor se sente só e abandonado. Me sinto rejeitada e menor. Se isso é uma peça pregada, não tem mais graça e já está na hora de revelarem o segredo! Se isso é um pesadelo, já é dada a hora de eu acordar!

Depois daquela sessão, com duração de três vidas ou mais, apertei stop, desço do palco e levantarei do meu assento para deixar aquele estado mental me corroer e o fazer fazer de mim um novo ser, tão ilúcido e incompleto e ignorante de suas próprias aptidões e virtudes como antes. Antes eu era um humano incapaz de pensar minha existência, agora passei a ser um ser humano consciente dessa redundância.

les enfants du paradis

Um olhar despretensioso me veria sentado comendo pipoca assistindo a vida passar vagarosa diante dos nossos olhos com a dúbia consciência de que o dia de hoje não volta mais. Alguém que procurasse poderia me enxergar mergulhando de cabeça num oceano de calmas águas mornas para então ficar à deriva deixando os peixes fazer cócegas nos pés. Se me perguntassem eu diria que estava garimpando as palavras a fim de preparar meu discurso de um jeito que não ficassem emendas nem rasuras. Enquanto que por dentro eu me sentia flutuando entre as nuvens de algodão doce deixando rastros de arco-íris e com o frio na barriga me conduzindo até onde fosse possível chegar. Sendo que na verdade estava ali deitado de olhos fechados com os fones de ouvido plugados sentindo o silêncio e o escuro do quarto enquanto a música seguinte não começava.

DEZABAFO

A ARTE ESPLICA O INESPLICAVEL E PREENCHE O VAZIO INERENTEMENTE HUMANO DE NOSSAS ALMAS MORIMBUNDAS. É O AMOR ARTISTICO Q FAZ COM Q NOS SINTAMOS COMPLETOS QUANDO CASAMOS. É O AMOR ARTISTICO Q NOS PERMITE ACREDITAR EM DEUS. MAS MESMO ASSIM À SEMPRE UM VAZIO. SÓ ESQUECEMOS Q ELE EZISTE QUANDO TEMOS UM ORGASMO. PODEMOS TER PEQUENOS ORGAMOS DURANTE TODO DIA, POR ISSO NAO PRECIZAMOS MAIS DA ARTE. POR ISSO Q VENDI MINHA TELEVISAO. POR ISSO Q BUSCO PRAZERES ALTERNATIVOS DURANTE TODO DIA. MINHA VIDA AGORA É RAZA COMO A COLHER DE ESQUENTAR HEROÍNA. A VIDA AINDA NAO TEM SENTIDO MAS A BUSCA ESTÁ DEVIDAMENTE MAQUIADA E BEM VESTIDA. DESISTI DA ARTE E DE TODOS OS SEUS DESDOBRAMENTOS E PASSEI A VER AS COISAS APENAS ATRAVÉZ DA LIMITASÃO DO MEU CORPO E DA PRIZÃO A Q ME SUBMETI. COM ISSO ABANDONEI AS METÁFORAS, AS COMPARASÕES E AS ALEGORIAS. UM LIVRO PASOU A SER UM AMONTOADO DE LETRAS, UM QUADRO NAO É MAIS DO Q UM RETRATO E UMA TELENOVELA NAO PRECISA MAIS DO Q ME ENTRETER. NAO VEJO ARTE NUMA SEMENTE DE LARANJA NEM NUMA CRIANÇA Q COBRE A CABEÇA PRA Q NINGUEM À VEJA NEM NO SABAO JOGADO NO XAFARIS Q ENXEU A PRAÇA DE ESPUMA. ME EMPORTA A FORMA: QUEM FEZ O ATENTADO, AS AUTORIDADES Q NAO VIRAM, SE AQUILO ERA SABAO EM PÓ E O QUANTO O CHEIRO ME ENCOMODA. MINHAS INDAGASOES PASARAM A SER MAIS RAZAS JÁ Q NAO ME EMPORTO MAIS COM AS RESPOSTAS. MAS FUI HIPÓCRITA O BASTANTE PARA ANTES DE VENDER MEU COMPUTADOR E SAIR DE CASA PARA MORAR NUM BANCO DE PRAÇA POSTAR NUM BLOGUE O QUANTO TUDO ISSO ME DEIXA INDIGUINADA.

Amargo

— Você vai querer café?
Aquele dia foi um dia estranho. O mundo estava menor e o tempo estava parado e as horas passavam rápido demais sempre.
— Você quer café?
Ela vinha agindo diferente. Ela já não tinha mais aquela velha aparência jovial. Seu rosto era duro e sem curiosidade. Ela já teve cheiro de hortelã.
— Sim, por favor. Com bastante açúcar.
Café para mim tem gosto amargo. Café tem gosto de funeral. Café era o que nos mantinha a sanidade e os níveis de ansiedade baixos quando morria alguém de nossa família. Era para nos manter acordados, já que o que mais queríamos era poder deitar e relaxar e saber que quando acordássemos tudo estaria bem.
— Precisamos conversar.
Ela sabia tão bem quanto eu que eu não gosto de café. Ela não vinha prestando atenção no que eu dizia. Estávamos distantes. Ela estava distante.
Ela se sentou bem perto. Ela me olhava na alma. Não me reconheci no reflexo em seus olhos. Ela me via como um monstro. Ela tinha mudado muito desde que nos encontramos pela primeira vez.
— Estou indo embora.
O café que ela tinha preparado estava bastante amargo, mais que o usual. Ela não tinha prestado atenção quando lhe pedi bem doce.
— Acabou o açúcar?

18h07

O relógio era sempre pontual. Às sete horas da manhã, ele era sempre o primeiro a acordar. Para ele as coisas eram sempre mecânicas; de modo algum ele se preocupava com a rotina. Ele sorria enquanto apitava o alarme. Era aquilo que o tornava vivo, era-lhe tão prazeroso ser capaz de prever o futuro. Ele sabia com toda a certeza que dali trezentos segundos seria 7h05. E, depois de seiscentos, seria 7h10. Novecentos segundos e era 7h15.
O relógio sabia, talvez tão bem quanto ela mesma, que após quinze minutos de soneca, ela se daria conta de seu atraso e, com cara de espanto, e com uma descarga de adrenalina, sairia correndo pela casa se aprontando para, no máximo às 7h30, sair de casa.
O relógio sabia, da mesma forma que sabia quantos minutos tem uma hora, que sua rotina parecia menos maquinal que a dela. Ela sempre todas as manhãs tinha os mesmos hábitos, as mesmas manias, os mesmos procedimentos. O relógio sabia quanto tempo ela demorava no banho e o tempo que ela se enrolava calçando os sapatos.
Ainda terminando de ajeitar sua roupa, ela saía às pressas, agarrando sua bolsa e batendo a porta atrás de si. O relógio assistia a tudo e se impressionava com sua pontual impontualidade. Ela estava todos os dias pontualmente atrasada.
O relógio não sabia como era a rotina dela fora de casa; não fazia ideia do quanto uma profissão pode ser metódica e rotineira. O relógio sabia que, todos os dias, dez horas após ter saído de casa, ela voltava exausta e com um semblante infeliz; deixava a bolsa sobre o sofá, ia ao banheiro, ia à cozinha, tomava dois copos de água da geladeira e em seguida ia ao quarto e sentava-se sobre a cama. Todos os dias do mesmo jeito. O relógio sabia como acontecia e sabia prever como aconteceria no dia seguinte.
…até as 18h07. Dali em diante, era como se outra alma tomasse o lugar daquela. Seu corpo, antes pálido, tornava-se viçoso; seus lábios, azulados, tomavam cor – era como se lhe enfiassem ânimo goela abaixo.
Depois disso, seus passos eram inconstantes e imprevisíveis. Ela flutuava por aquela casa. As luzes ganhavam outros tons. A pintura e os móveis da casa passavam a ser aconchegantes. O quer que ela fizesse nesses horários a deixava satisfeita. O relógio a notava mais ou menos triste, dia a dia, sem lógica nem razão aparente. Mas ele notava que aquilo lhe dava prazer; ela, naqueles momentos, fazia o que ela realmente queria fazer, as coisas de que mais gostava.
Entretanto, embora "inconstância" fosse a palavra-chave para defini-la, o período de imprevisibilidade era mecanicamente rotineiro. Todos os dias, ela, cansada e satisfeita, ligava na televisão um dos filmes de sua coleção, deitava no sofá e assistindo dormia sempre antes do fim. Sempre acordava nos créditos e finalmente ia para a cama dormir.
Àquela hora, a menina que levantava e seguia para a cama, ainda meio dormindo, parecendo um robô, não era mais a menina animada das 18h07; essa era pálida, de lábios frios e secos. Ela, dormindo, parecia estar morta; e era o relógio quem velava seu corpo. Todos os dias ela nascia e vivia um pouco de seus últimos momentos; e o relógio sabia disso.


Nota

Onde se lê "despretensiosamente sentei-me em frente ao computador e digitei caracteres desconexos" leia-se "despretensiosamente abri uma página de blog e li palavras avulsas aleatórias".

Não É Sobre Amor

O mágico não levava jeito com a corda bamba. Sua varinha era pequena demais para manter-lhe o equilíbrio, que ele mal conseguia equilibrar a cartola em sua cabeça. A plateia, evidentemente, torcia para que ele caísse.
Do outro lado da corda, sentada sobre algo que parecia ser um trampolim, a bailarina, vestida para encenar O Lago dos Cisnes, segurava um algo que pendia do teto e que parecia com um trapézio.
Lá embaixo, o palhaço tentava chamar toda a atenção para si. Ele recitava um poema chato sobre como o mundo havia sido criado enriquecido com rimas pobres e iambos e troqueus.
Meu papel era fazer com que tudo desse errado. Eu seria o primeiro a rir quando um deles falhasse e a puxar vaia quando o truque fosse mal executado ou a piada fosse sem graça. E, para isso, eu carregava comigo uma espingarda.
...

Seria muito mais simples se em vez de ter de se equilibrar o mágico pudesse transformar a corda numa prancha ou algo largo e firme o suficiente para que se pudesse simplesmente caminhar sobre ela. Ou quem sabe uma corda invisível presa ao teto que o fizesse não só se manter equilibrado, mas ser capaz de flutuar levemente por sobre o picadeiro.
A bailarina olhava para ele como se pacientemente o esperasse. Ela era sem dúvida a criatura mais atraente, porque misteriosa, de todas sob aquela lona. Havia um brilho terno em seus olhos; uma coisa que eu não me sentia capaz de fazer dar errado.
De propósito, dei atenção ao palhaço; ninguém mais estava olhando para ele; era mais fácil que ele arrancasse pena das pessoas do que risos. Era dramática sua situação; se eu conseguisse fazer dar errado, eu estaria, paradoxalmente, fazendo com que as pessoas rissem do palhaço.
Minha responsabilidade era a maior de todas. Eu mudaria o curso das ações; aquele espetáculo ao avesso tomaria outras proporções devido simplesmente à minha presença e, sobretudo, à minha vontade. Se alguém deveria ser culpado, esse era eu.
...
O mágico era um mágico. E não um mago. O que ele fazia era enganar as pessoas, se aproveitar de suas falhas de percepção e se usar de apetrechos tecnológicos para que todos acreditassem nele. Mas sabia que ninguém acreditava. Se ele fosse mago, ele implantaria sua verdade nas pessoas; elas acreditariam e nem questionariam. Ele poderia se transformar num dragão e salvar a princesa. Ele não teria que estar ridiculamente se equilibrando sobre uma corda frouxa no alto de um circo falido para um público respeitavelmente imbecil. Ele não precisaria se submeter a tanto para poder cortejar uma dama, a sua dama.
A dama havia se posto em pé sobre o trampolim; seu brilho nos olhos e suas sobrancelhas clamavam pela ajuda; era possível sentir a insegurança na delicadeza com que segurava o trapézio; suas pernas, tremendo, faziam o trampolim sacudir. Ela estava prestes a cair e nós, todos nós, riríamos e iríamos para a casa contentes e, principalmente, satisfeitos.
O palhaço falava da chuva que molhava as almas impiedosas que deixavam de existir por terem sido esquecidas e abandonadas; falava asneiras sobre criaturas de carbono que achavam que um dia virariam diamantes. Era ridícula a convicção estampada debaixo de sua maquiagem; mas eu preferia não rir para que não parecesse que o engraçado era o palhaço. Sua metáfora era sarcástica e corrosiva, mas, vinda de baixo, não nos atingia.
Por isso, naquela noite eu ia querer usar balas de festim; meu objetivo era chocar e não, nunca, machucar. Limpei a arma e carreguei uma bala em cada cano; eu sentia que ela sabia melhor do que eu o que aquilo significaria.
...
Com todo o cuidado, apoiei a espingarda entre as pernas e coloquei os dois canos dentro da minha boca; delicadamente, estiquei meu braço alcancei o gatilho, de modo que a arma fizesse um ângulo reto com meu nariz; relaxei meu corpo e olhei em volta.
Os três atores em cena estavam parados – a não ser pelo tremelicar das pernas da bailarina, o leve chacoalhar da corda que o mágico penava em manter firme e o suspiro profundo do palhaço de olhos vazios –, a audiência ensandecida estava tensa e calada.
Puxei o gatilho e ouviu-se um estrondo. No mesmo instante a bailarina desequilibra-se e cai – no seu rosto nós todos vemos seu desespero; a corda bamba do mágico arrebenta e ele vê sua morte lhe esperando no chão de braços abertos; todos vemos a bailarina não sendo forte o suficiente para sustentar seu próprio corpo soltando seus dedos delicados do trapézio. Víamos todos, com uma mistura de ânimo, excitação e alegria, a morte deles sorrindo lá embaixo.
Na mesma velocidade que o inesperado tinha começado, o mágico prende-se magicamente à corda, que, num movimento centrífugo, o joga em direção à bailarina. Ele consegue alcançá-la no ar e, como num passe de mágica, os dois chegam ao chão são e salvos. E quando seus pés tocam o chão uma revoada de pombos brancos eclode em direção ao céu; no fundo acende-se um coração vermelho feito em neon.
O respeitável público aplaude em pé, sem entender. Rosas são jogadas ao picadeiro. Sob as rosas, o palhaço: o tiro o havia atingido. Já não mais respirava e ninguém mais o via. Seu último discurso se tornou seu epitáfio. E era sempre assim: cada vez que eu me matava, era sempre o palhaço que morria. Era sempre o palhaço que morria.
 

Beija-flor

Eu estava lá parado em frente à janela olhando o jardim. O dia estava bonito. Não havia nuvens no céu e o sol brilhava claro no alto, embora ali dentro, na sombra, fizesse frio. Quem me visse diria que eu estava lá parado em frente à janela olhando o jardim. Por dentro, eu gritava e esperneava. O que eu queria era não estar ali. Parecia que aquele corpo era pequeno demais pra mim. Meu coração tinha apodrecido e sumia perdido dentro do meu peito. Minha vontade era de tirá-lo e jogá-lo fora. Ou comê-lo e me envenenar. Lá fora o beija-flor carinhosamente beija uma a uma todas as flores do jardim.

Sentido na Pele

Já passava do meio-dia quando ele finalmente acordou. Não reconheceu o quarto; estava bastante bagunçado, com roupas espalhadas por todos os lados. Ele se perguntava o que estava fazendo naquele lugar e há quanto tempo estava ali e por que estava pelado.
Levantou e caminhou por aquele lugar, que parecia um quarto de hotel barato. Em cima de uma penteadeira ao lado da televisão tinham umas cartas de cobrança endereçadas a um tal Roberto. Devia ser ele.
Saindo do quarto, percebeu que aquilo não era um hotel, mas uma residência; algo lhe dizia que era ali que ele morava. Ainda pelado, procurou por vestígios de mais pessoas na casa. Parecia ser a casa de algum solteirão de meia-idade. Ele não sabia de quem era.
Ao se olhar no espelho, entendeu quem era Roberto. Ele não se conhecia naquele corpo, mas sabia, apenas por dedução lógica, que aquele que o olhava era ele mesmo. Era um rosto cansado, que começava a apresentar rugas; o cabelo era preto e do meio despontavam alguns fios brancos. Roberto perguntou-se quantos anos haviam se passado.
Ligou a televisão e no telejornal viu que já haviam passado do ano dois mil. A moça bem vestida se esforçava para parecer preocupada com o que dizia. Eram basicamente as mesmas notícias, mas os números eram mais alarmantes e aumentava (e aumentava) o número de mortos.
Ele não entendeu exatamente onde a moça queria chegar dizendo tudo aquilo; não conseguia ver em que media aquilo afetava sua vida. Na verdade, Roberto não pensava em nada disso.
Decidiu sair e ver o que tinha lá fora. O sol sofria tentando se manter aceso por detrás das infinitas nuvens cinzas. Na rua, as pessoas tinham todas o mesmo formato e se vestiam maquinalmente iguais; era preciso paciência, força de vontade e perspicácia para perceber no que elas se diferenciavam. Todas, sem exceção, não se sentiam confortáveis com o fato de Roberto estar pelado.
Um homem que se apresentou como Pedro (mas que poderia se chamar João, Schmitz, Goku ou HR432), cristão, bem-apessoado, de bom coração, conhecedor das normas de bom costume e disposto a transmitir (como verdades absolutas) os valores de sua moral benévola que “poderia salvar o mundo” resolveu ajudar Roberto: envolveu-o com seu casaco, abraçou-o e levou-o a um lar de caridade onde pudessem lhe dar roupas.
Com sua boa-ação do dia feita, Pedro despediu-se cordialmente e imergiu no meio da multidão. Roberto, vestido, pôde finalmente se misturar ao bolo. Agora, quem quer que o visse, facilmente o consideraria um legítimo BT!
Mas Roberto sabia que não era. Mas Roberto não sabia o que era. Imerso, frequentou aquele mundo pelo tempo que conseguiu. Disposto a entender como tudo funcionava, juntou-se àqueles com quem conseguia interagir. Viu que alguns deles saíam à noite, reclamavam do que estavam fazendo e bebiam (e bebiam); seis ou sete dias depois, faziam de novo com o que tinham acumulado nos dias anteriores. E Roberto, na verdade, não pensava em nada disso.
Em casa, Roberto vivia pelado. Raramente ligava a televisão e não tinha nenhum tipo de entretenimento habitual. Para ele, parecia que o tempo simplesmente passava; sem que ele precisasse forçar sua passagem ou se esforçasse para que não escapasse por seus dedos.
À noite ele podia sair pelado – contanto que não encontrasse ninguém; quanto mais tarde, mais possível. Era mais fácil em noites frias de chuva. Certa vez, Roberto foi detido e teve que passar a noite na prisão. Sentiu o que era ter sua liberdade, já bastante limitada e condicionada, ser completamente tirada dele: na cadeia ele tinha que dormir de roupas.
Livre da prisão, Roberto, que mesmo na rua podia continuar sendo chamado por um número, voltou pra casa. Tinha um recado avisando que ou ele arrumava um emprego e pagava as contas, principalmente as de aluguel, ou ele seria despejado. A dona da casa conseguia ainda repousar tranquilamente seu coração, já que tinha feito a boa-ação de conceder-lhe prazo para se ajeitar na vida.
Despejado, Roberto foi morar no parque do outro lado da cidade. Lá havia árvores que lhe davam de comer e, em dias de pouco movimento, ele podia ver, pelado, lá de cima, a cidade encolher.
Mas, conforme o tempo passava, Roberto se sentia mais (e mais) atraído à cidade lá embaixo. Parecia que ficar pelado não cabia mais ao seu espírito. Talvez usar roupas não fosse um sacrifício tão grande. Ele se vestiu e desceu ao bolo na esperança de encontrar alguém que aceitasse passar o resto de sua vida pelado com ele lá em cima. Roberto, na verdade, não pensava em nada disso, mas era justamente essa sensação que fazia dele tão comum como todos os outros. E não o fato de ter que usar roupas.


Minha vida joguei no lixo; meu coração foi pro lixo que não é lixo.
Quem sabe pra ele que não tem coração seja útil meu coração partido.

a c / d c

Uns momentos antes eu senti uma coisa estranha que não parecia com nada de tudo que eu já tinha sentido. Não era tontura – eu nem sei dizer se aquilo foi ruim. De repente eu me senti flutuando; parecia que o mundo e todas as coisas físicas tivessem deixado de existir; eu não sentia meu corpo; não tinha cheiro nem gosto nem forma. Talvez você possa pensar que eu estava sonhando ou que tudo isso se parece um sonho que talvez possa você um dia ter tido, mas não: nos sonhos, por mais irreal que seja, por mais que você acredite que aquilo não está acontecendo, tua mente prega peças em você e te faz sentir um mundo físico abstrato com o qual você – ou teus pensamentos ou o que quer que seja a criatura que você se torna ou por quem é possuído – pode interagir. Era como se de uma hora pra outra meu corpo tivesse sido desalojado do espaço-tempo; por um tempo – que não parecia tempo, que não era possível de ser sentido passando, e por isso não sei se foram segundos, horas ou milênios – eu me desliguei e apaguei. Era uma coisa como um flash de luz que não podia ver nem sentir; mas era confortável: quente e silencioso.
Como num clique eu voltei ao lugar em que estava, no mesmo espaço no tempo no qual eu havia estado antes; mas, de algum jeito tão estranho quanto o jeito que tudo isso havia começado, eu sabia que aquilo representaria um marco zero naquilo que eu (agora eu sei) erroneamente chamava de vida. Foi lá, naquele instante, que eu percebi quem eu era de verdade e aonde eu queria e aonde eu deveria chegar. Eu sabia que, embora eu tivesse andado por muito tempo, eu estava preso dentro de um círculo, tonto, sem sequer saber o que era caminhar. E foi ali, naquele instante, que eu abandonei o que eu era para seguir essa unidade: sem dúvidas e sabendo onde quero chegar.


– Ela foi dormir cedo para acordar cedo: sabe como são as coisas no sítio. Foi assim por anos e ela nunca viu nada de extraordinário. Cansada, decidiu ir pra cidade, onde aprendeu na prática o que era o tal do latrocínio, que tanto falavam na tv.

Um Punhado de Terra

– Você ouviu isso?

Ela já não tinha certeza do que sentia. Parecia que, de repente, todas as coisas do mundo tivessem deixado de existir e essas coisas que existiam agora tinham sido colocadas às pressas para substituí-las.

Era um barulho de sirene. Não era alto, mas incomodava; roubava toda a atenção, embora não desse pra saber de onde vinha. Parecia um alarme de emergência; parecia que estava tudo pegando fogo e quem pudesse deveria correr para se esconder. Fez ela lembrar das sirenes que avisavam a população sobre os ataques aéreos na segunda grande guerra. Era como se ela estivesse no meio daqueles sonhos estranhos em que nada parece real e que você tem consciência de que é um sonho e sabe que vai acordar cedo ou tarde – daqueles sonhos que não são tão ruins para serem chamados de pesadelos; e no meio desse sonho você sente que está acordando, mas não acorda. Era o que ela sentia: a sirene era como o despertador; como aquela tinta borrada que destoa de o restante da pintura.

A sirene vinha de lugar nenhum.

– Sim. É aquele carro de polícia.

O rapaz que estava sentado no banco ao seu lado foi simpático ao responder, mas ela via nos olhos dele que ele achou a pergunta um tanto inconveniente. Ele apontava a viatura da polícia com suas luzes vermelhas gritando entre os outros faróis.

Ela levantou de supetão e decidiu descer do ônibus. Sabia que não devia estar longe do centro da cidade, mas não sabia onde estava. Seus pés doíam e ela andava sem pensar.

Ela não queria voltar pra sua casa; sabia que deveria ter arrumado e limpado as coisas por lá havia dias, mas era melhor adiar. Ela se sentia desmascarada em casa; se fora dela ela se sentia despedaçada, em casa ela via que nunca tinha tido todos os pedaços. Quando jovem, os espelhos da casa de sua mãe, que, para ela, criança, nunca mentiam, mostravam seu rosto cheio de imperfeições; faltava-lhe um olho e seu nariz era torto. Nos de sua casa, hoje, ela não consegue se ver; ela vê a cama e a janela ao fundo e onde deveria estar seu rosto, uma grande névoa.

Seus passos, como sempre, mais uma vez a levaram àquela mesma praça. Havia algo naquele lugar que a atraía de modo com que ela nem via o quão cega ela estava sendo. Era àquele minúsculo pedacinho de terra sem calçamento que ela corria; sentir todos os grãos de terra de cada punhado em sua mão a fazia se sentir flutuando. Se ela não sabia quem era, ali ela não sabia que existia. Havia dias em que ela perdia horas ali e negligenciava todas suas responsabilidades. Mas, ali, na hora, ela não pensava em nada disso.

Só depois, de volta à sua casa, depois de cair na real de o que estava fazendo é que ela via aonde ela estava chegando. Era o que ela estava fazendo com sua vida.

Fora de seus devaneios, rodeada de pessoas, ela se perguntava se eles também se sentiam como ela. Será que havia mais loucos como ela ou loucos são os que não fazem as loucuras que ela faz? Chegou certa vez a comentar com seus amigos, mas não soube montar a pergunta e achou melhor deixar pra lá.

Nas paredes de seu quarto desenhou pedidos de socorro que nem ela voltou a ver. Hoje seus pedidos atendem mais pessoas, mas ela sabe que não desenha tão bem e não mostra suas obras de arte aos médicos. Ela teme o Rivotril.

E era ali, sentindo os grãos frios da terra gelarem seu rosto, que ela se sentia viva de verdade. Ela não sabia disso; nem suspeitava por que voltava tantas vezes àquele lugar. Se lhe perguntassem, talvez até negasse que vinha tantas vezes.

Ali, deitada de braços abertos olhando as nuvens no céu noturno, que, vistas dali, pareciam rosadas, ela se perdia em seus pensamentos. Lá estavam os prédios, todos tão grandes e esmagadores, fazendo-a parecer um grão de terra. Se ela tivesse asas, ela bateria em retirada dali e lá de cima veria os prédios todos pequenos lá embaixo; sentiria o frio das nuvens, sua roupa umedecida e congelante. Voaria nua por cima da cidade. Lá de cima, assistiria o fim do mundo. E quando se enjoasse ou se sentisse sozinha demais, lá em cima deixaria suas asas parar de bater.

Já era tarde da noite; a praça tinha se esvaziado. Debaixo de um dos bancos, um cão; sobre um outro, deitado, aquele velho abraçado ao seus cadernos de desenho – parecia que ele estava sempre de olhos abertos. Ainda deitada, com terra por todo seu cabelo, ela pensou no ciclo que acabava para que outro começasse; no fundo, ela sabia que o dia seguinte seria igual àquele: a mesma rotina, as mesmas pessoas. Mas num daqueles momentos em que brilha um lampejo de esperança, ela levantou dali; ia pra casa dormir, com a certeza de que o outro seria um dia perfeito. Antes de ir, parou e olhou para aquele pedaço de terra.

– Adeus!
Com os fones no ouvido, ela sorriu e pensou: "Gosto de não saber o que ele está falando"

Coração Inflamável

Arranjadas por ano, ali no chão, estavam todas as cartas. Organizadas em pilhas por ano. Depois, por cor e por forma de papel. E, além disso, todas ali organizadas cronologicamente. As de cima das pilhas foram desorganizadas por uma rajada de vento.
Era inverno. Garoava. Estava frio. Sempre estava frio. Havia um bom tempo desde a última vez que o sol apareceu. As tais flores prometidas e ansiadas da primavera nem deram sinal de que vão um dia ainda aparecer. Duvido.
Levantei e fechei a janela. A cortina, de um tecido de um amarelo fosco, tinha agora uma mancha marrom molhado pela chuva que invadiu. Lá fora, o céu pintava o rosto das pessoas de cinza; as árvores da calçada pareciam de cimento; os carros pretos e pratas sobre o calçamento de cimento. Cinza.
Horas depois, voltei ao chão. Às cartas. Havia algumas espalhadas. Pensei em organizar tudo de novo. Àquela hora, o fogo da lareira já ia alto. Talvez se eu organizasse por remetente, eu ia entender o que tudo aquilo tinha a ver com nada.
Sentei-me na frente da lareira e resolvi não ler nenhuma daquelas linhas. Resolvi apenas contemplá-las: organizadas e belas e cheias de letras.
Deitei-me no chão.
Sem pensar em números, assisti, sem pensar, o caminhar vagaroso dos ponteiros do relógio. Sem pensar. Pensei em não pensar, por isso pensei. Pensamentos me devoravam vagarosos.
O fogo da lareira se apagava. Àquela hora a sala estava bem escura. A chama ia logo se apagar. Joguei no fogo minha mão esquerda. A sala brilhou e logo voltou ao escuro. Meu braço, em seguida, fez brilharem meus pensamentos por mais tempo.
O silêncio daquela casa me destruía. Achei melhor me levantar e por uma música pra me distrair. Pus fogo em minha perna e fui aos pulos até a estante. A perna esquerda. Nas prateleiras escolhi cinco dos meus melhores cds e coloquei na bandeja. Músicas calmas. Eu queria ouvir músicas calmas.
Agarrei o controle remoto e voltei pro chão. “Tudo o que eu precisava, nunca mais precisei”: era, então, minha perna esquerda que iluminava meus escritos, ali, jogados no chão. Eu nunca mais ia querer lê-los. Nem vê-los. Nem mais ninguém.
Meus olhos lacrimejavam com a luz do fogo. As lágrimas escorriam pelo meu rosto. Eu não queria pensar. Eu não conseguia pensar. Eu já não pensava. A luz me cegava e eu ainda não tinha deixado de prestar atenção no relógio. “Eu te dei minha mão, disse 'tudo bem abandonar, é hora de sair daqui'”. Não queria nunca mais ouvir nem o relógio nem o gemido dos alto-falantes. Aquelas glândulas lacrimais estavam já velhas e ultrapassadas. Eu não precisava delas. Nunca mais precisei.
Sem hesitar, embora com muito cuidado, eu tirei minha cabeça do pescoço. Sem sentir nada, ela logo estava no fogo. Dali em diante, escuridão total e silêncio. Não via mais nada. Não ouvia mais nada. Não havia mais nada.
Só então percebi o que era não pensar tão obstinadamente naquela mesma coisa. Sem pensar, consegui deixar de pensar.
Sem poder saber que música tocava, me arrastei com dificuldade pra dentro da lareira. Não pude sequer ver o brilho que emanou do meu resto de corpo. Espero que estivesse tocando Beatles. Acho que ninguém viu.

Partes 1 e 2 de 3

I. Calcular o tempo pelo girar no sentido horário do ponteiro maior do velocímetro, fazia parecer que, lá fora, o mundo fosqueava. Até tudo passar pelas vistas outra vez com a volta abrupta do ponteiro, a vida corria rápido demais rumo ao fim da estrada.
II. Após contabilizar os mortos no trânsito, ela acendeu um cigarro.

Autotrofia

Havia quem lhe dissesse que comer é um prazer solitário; o êxtase ou o que quer que seja aquilo que se sente ao comer só é bem sentido quando se está sozinho. O sabor da comida, seu cheiro, o quanto está deliciosa; o sentir da comida sendo jogada de lado a lado sobre sua língua e tocada pelos dentes. Todavia, o dever social humano de nunca ignorar as pessoas que estão em volta impede que a comida seja devidamente apreciada; não lhe é reservado o prazer que ela merece.
Ela, no entanto, não pensava assim. Ela concorda que é, sim, sem dúvida, um prazer que se sente sozinho, mas que, para que seja mais bem aproveitado, deve ser vivido simultaneamente com alguém. Afinal, qual é o prazer que não se sente sozinho? Mesmo que acompanhado ou proporcionado por alguém e/ou para alguém, todo prazer é sentido sozinho. E, por isso, ela sempre precisava ter alguém por perto. É melhor ter alguém por perto que também esteja sentindo aquele mesmo prazer.
Só que ela precisa todos os dias comer sozinha. Sem opção. A menos, pensava, que fizesse amizade com a pessoa da mesa ao lado e fizesse um novo amigo por dia. Mas não: curitibanos simplesmente não funcionam assim.
Contrariada e sem vontade, ela comprou um sanduíche e sentou na mesa em frente à janela do andar de cima naquela lanchonete da Boca Maldita. Apesar ser a hora do rush, ela sentou lá sozinha, entre todas aquelas mesas. O vidro da janela abafava o som da correria do fim de tarde lá de fora; ali dentro reinava o silêncio – falta uma musiquinha ambiente, pensou.
Lá embaixo, as pessoas pareciam tão iguais umas às outras. Embora parecesse uma bagunça total, ela conseguia ver que todos andavam na mesma velocidade – os que iam mais rápido seguiam todos na mesma velocidade alternativa; eles andavam mais ou menos em fila; vestiam roupas mais ou menos parecidas umas com as outras.
O silêncio foi quebrado por um senhor que subia em passos lentos e barulhentos pela escada. Ele a olhou com um olhar simpático, mas não falou. Naquele mesmo ritmo escolheu uma mesa também não muito longe da janela e pôs-se a comer.
Ela simplesmente não se sentia à vontade. Ela jogava a comida pra dentro da boca, molhava desleixadamente com aquele suco sem gosto, jogava de qualquer jeito de um dente pro outro e quase sem mastigar engolia.
Lá embaixo, um carro de polícia, um menino e um violão, um carrinho cheio ao máximo de papelão, um executivo e uma mulher já de idade vestida de palhaço. Mesmo com suas funções absurdamente diferentes, eram todos tão iguais.
No meio da multidão ela viu um menino que se vestia com roupas muito parecidas com as que seu irmão costumava usar. Olhando com mais atenção, ela viu que até o boné e o corte de cabelo eram parecidos. Ele estava longe demais para ela ter certeza, mas aquele podia ser realmente o seu irmão.
Na direção oposta, com passos firmes e alternativamente rápidos, vinha uma mulher que ela percebeu ser muito parecida com sua mãe. Aquela mulher chamava atenção de um jeito diferente; parecia que, apesar de usar um padrão de vestimenta muito parecido com o dos outros, ela tinha algo especial que lhe conferia um caráter único.
Prestou mais atenção no fluxo contínuo de pessoas e encontrou lá no meio mais conhecidos: primos, tios, amigos, vizinhos… e em todos eles havia um brilho diferente, como se estivessem lhes apontando holofotes. Perguntou-se se apenas ela via as luzes; concluiu que, talvez, na verdade, as pessoas não fossem assim tão iguais. Embora olhando todos de longe parecesse fácil juntá-los num imenso bloco e dizer que são todos realmente muito parecidos, unitariamente, de perto, não são tão iguais assim. Ou talvez ela tenha tido sorte de conhecer justamente as pessoas que não seguem as massas tão à risca.
Foi quando, no meio da multidão, ela viu uma menina igual a ela.
E aquela menina que ela admitia ser exatamente igual a ela mesma, que com certeza se passaria por ela em sua ausência, não tinha um holofote que lhe apontava. Ela era simplesmente mais uma somada à multidão. Parecia não haver – como com seus conhecidos – nada que lhe tornasse única. Ela vestia roupas como as de todo mundo ali em volta; seu caminhar, no tamanho de seus passos e na velocidade em que andava, era igual aos de todos. Nada lhe fazia se sobressair; ela via que seu clone era só mais um na multidão.
Nessa hora, a comida revirava-se em seu estômago. Aquilo não estava de forma alguma lhe sendo prazeroso. Concluiu que devido à sua voracidade de desprazer com a comida ela estava tendo essas alucinações. Decidiu sair dali.
Levantou-se, pegou sua bandeja e foi sentar junto ao velho simpático. O velho lhe acolheu muito bem. Enquanto isso, lá embaixo, um holofote acendia-se sobre sua imagem semelhança.

Água é a substância de maior importância para a vida; sua criação evidencia a existência de uma entidade divina. Mais ainda há aqueles que tentam provar os fins pelos meios.

A História de um Gatinho Branco Chamado Mingau

Era uma vez um gatinho branco. Ele era tão branco, mas tão branco, que era chamado de Mingau – como aqueles mingaus de maisena que só a nossa avó sabe fazer.
Mingau era um gato muito sapeca, vivia fazendo traquinagens; a casa onde morava era um palco para suas aventuras. Mingau se divertia à beça pulando entre as flores do jardim atrás de uma borboleta ou tendo corridas alucinantes contra seu próprio rabo.
Certa vez, enquanto brincava com um novelo de lã – que também era um de seus passatempos prediletos –, ele avistou de longe no jardim uma garrafa. Mingau sempre foi um gatinho curioso e, até aquele dia, ele nunca tinha visto uma garrafa em toda sua vida.
De repente, sem querer, Mingau caiu dentro da garrafa. Ele tinha tentado cheirar a parte de dentro e quando viu sua cabeça estava inteira lá dentro. Ele tentou tirar e acabou se enfiando ainda mais. Por não conseguir sair, Mingau ficou desesperado e, por ficar desesperado, não conseguiu sair.
O gatinho tentou por muito tempo sair e ficou cansado; tão cansado que acabou dormindo.
Quando o sol nasceu no dia seguinte Mingau viu que ele tinha crescido muito na última noite – que nem acontece quando a gente é adolescente. Agora não havia como Mingau sair.
E, então, o tempo passou. Lá dentro, o gatinho sofreu; comia qualquer coisa ou inseto que por acidente caía ali dentro.
Certa vez, veio um ratinho com muita boa vontade que lhe trouxe comida. O ratinho era muito simpático e Mingau com todo seu bom coração aceitou a comida do ratinho. O ratinho, depois de dar pro Mingau aquele biscoitinho cheio de vitaminas, nunca mais voltou. Inexplicavelmente, depois daquele dia Mingau começou a crescer e crescer. Muito rapidamente aquela garrafa ficava muito pequena para o nosso gatinho.
Se viesse um outro rato lhe oferecer comida, Mingau provavelmente não aceitaria. Mas o fato é que o espaço dentro da garrafa acabara. O gato não conseguia mais respirar direito; ele não mais conseguia mover seus músculos; seus ossos quebravam esmagados contra as paredes sufocantes.
Embora gritasse por ajuda, nem mesmo os ratos vieram. O espaço ali dentro acabava e também acabavam suas forças. Esquecido, destituído de qualquer auxílio, ali, no meio do jardim, o gato morreu dentro daquela garrafa.
Seu corpo, entretanto, ainda está lá. E provavelmente lá mesmo permanecerá por muito tempo, até que o vidro se decomponha, para que, só assim, seu corpo possa também se decompor.

Φόβος

A sensação claustrofóbica é aterrorizante dentro de um elevador. O que pode amedrontar mais do que uma pequena caixa de ferro — quando não de madeira! — puxada de baixo a cima por correntes? A caixa é sempre, na verdade, minúscula. O ranger da madeira, os baques assustadores que aquilo dá quando começa ou termina uma viagem, o hesitar da porta antes de abrir quando o elevador chega no destino — que parecem horas para aqueles que anseiam por sair dali; nada disso ajuda o claustrófobo a se sentir à vontade.
Nada como os espelhos. É sempre tão bom abrir a porta do elevador e ter a sensação de que a parede não é o seu fim; como se além daquele espaço palpável tivesse um espaço muito maior que — sem tentar encontrar uma explicação plausível — está, paradoxalmente, habitado por um você que não parece estar tão amedrontado e passa uma aura tranquilizadora.
Mas o elevador daquele prédio era diferente; nele não se via nada de tranquilização. Sempre que entrava naquele cubículo, que se esperava que fosse bem menor do que parecia, ele tinha a sensação de se ter voltado ao caos da cidade, dos carros, das pessoas lá fora. A expectativa de tranquilidade que ele buscava para assim que chegasse em casa era destruída pelos espelhos que não só compunham a parede do fundo do elevador, oposta à porta, mas também as duas paredes laterais. Assim que entrava naquela caixa, vários outros ele entravam junto, refletidos infinitamente ao seu lado. Ele via as pessoas, via seus contornos, mas não conseguia ver seus rostos, que estavam sempre escondidos por trás daquele rosto que, sempre com olhos inseguros e curiosos, olhavam-lhe avidamente nos olhos. Estar naquele elevador era-lhe sempre uma tortura; ele não via a hora em que a jornada acabasse e ele pudesse se ver livre.
Naquele dia, em especial, ele até cogitou subir pelas escadas, mas estava cansado, queria acabar logo com aquilo, queria logo chegar a serenidade do lugar que, absolutamente, é seu. Assim que atravessou o corredor da entrada, depois de ter cumprimentado o seu Alceu, ele apertou o botão de chamar o elevador e balbuciou uma melodia. Cantava uma música de tom alegre, porque sabia que o porteiro psicanalisava cada um de seus movimentos e sabia que todo mundo ficaria sabendo se o fofoqueiro do prédio descobrisse que ele estava ali, na verdade, tremendo de medo, querendo por tudo não entrar naquela caixa de tortura.Entrou no elevador e tentou não focar no que via; assim que a porta se fechou e ele tinha certeza de que o porteiro não mais o via, ele cerrou os olhos com força. Pensou nos tempos de criança, naquela tarde ensolarada em que toda aquela turma de colegas de classe jogavam bola depois da aula; pensou no quanto doeu aquela canelada que certa vez deu na trave e no quanto o barulho das correntes se assemelhava com o som que reverberou no oco da trave e no quanto odiou aquele monte de crianças rindo e de nenhum modo se compadecendo de sua dor. O balançar do chão o deixava desequilibrado, como se sentia quando estava dentro de um ônibus, fez o que pôde para enganar a si mesmo e fingir que aquele monte de pessoas em seu redor eram passageiros do mesmo ônibus e que não eram infinitos — mesmo sendo muito numerosos, capazes de lotar por completo o ônibus, elas são aquele número de pessoas e não passa disso. Foi pensar nisso que o fez não perder a sanidade ali dentro.
Conseguiu sair de lá são e salvo. Saiu balbuciando aquela mesma música — só que desta vez sem o sorriso forçado. O corredor do terceiro andar estava vazio; ele não teve a curiosidade de ver se havia alguém, nunca; ele apenas saía do elevador e seguia em linha reta à porta de seu apartamento.
Dentro de seu apartamento, por todos os cantos, havia letras coloridas de diferentes cores, tamanhos e materiais; grudadas nas paredes, no teto, por sobre os móveis, coladas às lâmpadas; do tamanho de moedas, no formato de sapatos, com meio metro de comprimento. Aquele era um lugar não muito grande; lá havia poucos móveis, justamente por não caber muita coisa; para poder chegar onde queria lá dentro ele precisava se esgueirar por entre todo aquele lixo entulhado. Mas era ali que ele se sentia à vontade. Naquele lugar onde mal cabia ele, onde ele podia pôr as coisinhas que lhe agradavam — e, devido à sua filosofia, agradavam-lhe por completo: ele não precisava de muito pra se sentir satisfeito.
No canto, onde era o que se podia se considerar uma sala de estar, ele se sentou no chão, onde não cabia um sofá, empurrando aquele monte de letras para longe de si. Acendeu um cigarro, pegou o controle remoto e ligou a televisão; sobre sua cabeça, a janela semi-aberta, pela qual jamais poderia ele nem ver a cidade lá embaixo, engolia a fumaça de seu cigarro e guspia pra dentro da sala todos os barulhos lá de fora. Em meio ao barulho das buzinas, dos incessantes motores, do grito inquietante da sirene da ambulância que se aproximava de longe, ele tentava ouvir a televisão. Ali mesmo, no chão, enquanto via o telejornal, ele dormiu. No seu rosto, um sorriso; ele sonhava com as luzes da cidade: dirigindo seu carro, ele via os prédios que completavam o horizonte.
Uma vez, com toda sua boa vontade, o menino, ingênuo, pegou um giz e deixou sua mensagem na parede, mas eu, particularmente, não entendi nada do que estava escrito.

Havia muito tempo que ela não conseguia se dedicar ao seu marido. Era extremamente estressante manter a cabeça ativa pra cuidar das crianças, evitar que a casa fosse virada de pernas pro ar e fazer com que tudo desse certo no escritório. Ela não conseguia; nunca sobrava tempo pro esmalte, e seu cabelo há tempos não tinha um banho de creme. Mas era o que ela podia fazer; essa era a sua responsabilidade, ela não podia de forma alguma se queixar disso ou querer passar a batata quente pra frente.
Numa quinta-feira à noite, sem terem planejado, ela e seu marido, no meio de um congestionamento, param lado a lado esperando o sinaleiro. Ele, brincando com ela, começa a paquerá-la. Ela ri e vai na dele. Dali mesmo, da janela de seus carros, eles combinam de ir pro cinema – as crianças ficariam com a empregada hoje, só hoje.
Como nos tempos em que ainda era adolescente, eles foram assistir a um filme qualquer. Assistiram o filme todo de mãos dadas. Num daqueles momentos desinteressantes, no escurinho do cinema, eles se beijaram. Ela sentiu, como há muito não sentia, as borboletas no estômago; sentia-se voando. Fazia tempo que não se deixava levar dessa forma e conseguia esquecer das contas e de todos aqueles problemas todos. No meio do beijo, ela para o beijo e ri de uma piada que a menina do filme diz e percebe o quanto, de verdade, ela devia estar feliz.
Ele se sentia feliz em saber que onde quer que ela estivesse agora eles estariam olhando pra mesma estrela.

Saída

Ela acordou assustada; as vozes das pessoas, que falavam alto, haviam-na acordado. Ainda com a visão um tanto embaçada, ela olhou em volta. Estava sentada no chão deitada sobre os braços que lhe serviam de travesseiro sobre uma cadeira. Por todos os lados, pessoas, ocupadas, iam e vinham. Estava no saguão de um aeroporto; junto com ela, naquelas cadeiras, pessoas, ansiosas, esperavam por seus voos, parentes e desconhecido. Ela, por sua vez, sentia seus braços formigarem. Ela não conseguia se sentir à vontade em meio àquele tumulto; levantou e, cambaleante, procurou por uma saída. No banco logo atrás daquele em que ela estava deitada, estava aquele senhor que ela sempre via na praça, com os olhos frios em seu caderno e com seu lápis correndo por toda a folha como se não obedecessem aos comandos do velho. Do outro lado do saguão, via-se a porta; havia muita gente, ela mal conseguia locomover-se. Muitas pessoas conhecidas passavam por ela e acenavam; amigos de infância diziam coisas em línguas que ela não falava; sempre que havia aqueles que tentavam puxar algum assunto, ela sentia que aquele não era o lugar; deixava-os todos falando sozinhos — até mesmo sua irmã, de quem ela gostava tanto.
Do outro lado da porta, silêncio. Assim que ela fechou a porta atrás de si, um silêncio sepulcral se instalou; ela sentia-se aliviada, como se tivessem tirado um peso muito grande de seus ombros. No teto, pendiam lâmpadas fluorecentes por todo o corredor, que seguia cheio de portas dos dois lados, até sumir de vista. Lembrava-lhe o corredor de uma escola, mas as paredes, impecavelmente limpas, faziam-na pensar num hospital. Como o que ela queria era apenas sossego, aquilo lhe servia pelo silêncio.
Saiu por uma porta onde se lia saída e se viu num jardim cheio de flores, onde, por ser qualquer época do ano, não se viam flores, e se sentiu novamente à vontade. Recostou-se sob a sombra de uma árvore e dormiu por ali mesmo.

Frustrada com todos, ela se sentia decidida. Nada estava sendo do jeito que ela queria. Quando criança, ela sonhava com seu mundo encantado de sua vida adulta, com seu príncipe, com seu castelo e com tudo em volta feito pra que ela se sentisse feliz. E, hoje, felicidade era o que ela não via. Sem avisar ninguém, subiu cabisbaixa ao terraço. Diria adeus aquele mundo cruel que era o que restava daquele de seus sonhos e que não tinha nada de incrível.
Lá em cima, no limite do horizonte, um maravilhoso pôr do sol, que fazia seus olhos brilharem, a fez se sentir envergonhada de não ter prestado atenção nisso antes. Havia quantos anos desde a última vez que ela tinha assistido um pôr do sol?
Tirou os sapatos e sentou confortavelmente no chão. Olhou o sol vermelho até ele parecer completamente azul aos seus olhos. No céu, as nuvens, espalhadas, cada uma à sua forma, uma mais bonita que a outra, pareciam algodão doce. Se surpreendeu com o tom colorido do céu, que era alaranjado lá perto do sol e, conforme ela seguia olhando pra cima, até olhar, de ponta cabeça, pro outro lado e ver que, com a chegada da noite, brilhava num tom arroxeado. Percebeu que ela esteve por muito tempo procurando a beleza no lado feio e, só agora, percebia o quanto, de verdade, ela devia estar feliz.
não fez questão de apagar suas pegadas, mas precisou ter a certeza de que ninguém estava seguindo.

( )

( ... então, no meio da rua, eu tive aquela ideia — o insight. preguei meus olhos no vazio e deixei meus pensamentos viajarem. "isso rende um conto", logo pensei. passou por mim um transeunte, nem lhe dei atenção.

que cara de chapado, ein, irmão — disse ele.

¬¬ . não lembro mais da ideia que eu tava pirando )

[...]

Era um daqueles dias cansativos. Teve que vir de ônibus, o carro resolveu estragar justamente quando se precisava tanto dele. Estava estressado, com raiva. Ônibus lotado. Ele se sentia totalmente deslocado ali dentro, com sua pasta não mão direita e seu terno, na esquerda, pendurado, tentando achar seu lugar dentro daquela lata de sardinha, numa daquelas hastes verde-limão. Todas as ligações que ele tentou fazer tinham dado errado; todos os negócios, que ele ansiava fechar hoje, tinham dado errado. Nada estava sendo do jeito que ele queria. 
Quando ele finalmente conseguiu sair do ônibus, tentando achar as forças pra caminhar o longo trecho a pé que, de carro, ele faria em menos de dez minutos, começou a chover. A chuva caía em pingos finos e constantes e incomodava. De súbito, ele parou. Prestou atenção no jeito que a chuva lhe tocava. Havia quantos anos desde a última vez que ele se deixara molhar pela chuva? 
Deixou a pasta sob a cobertura de um orelhão, tirou os sapatos e se sentou no meio fio. Por mais de uma hora, ali, sentado, com a chuva, como uma velha amiga, lhe fazendo cócegas, assistindo a rodas dos carros desfilarem na água que escorria rua abaixo, ele pensou no quanto, de verdade, ele devia estar feliz.

Si Bemol Menor

Sempre que estava confusa, sentar-se na sacada abraçada ao seu violoncelo lhe fazia organizar seus pensamentos. Era possível saber como ela se sentia apenas pelo tom da música que tocava; funcionava como detector de sentimento.
Essa música era em si bemol menor, a mais acidentada das escalas. Para ela, esse tom soava confuso devido ao grande número de notas em bemol ou sustenidas. Nessa escala, todas as notas praticamente são sustenidas – como tocar apenas nas teclas pretas de um piano. Mas, ao mesmo tempo em que para ela esse tom remetia à confusão, ainda era um tom menor, ainda tinha um tom triste, e o timbre choroso do violoncelo não ajudava a diminuir o clima fúnebre.
Lá fora caía uma garoa fria que o vento gelado trazia pra dentro do apartamento; mas ela não pensava nisso, seus pensamentos estavam bem mais longe de uma discussão sobre o tempo. Lá embaixo a avenida de acesso à cidade com seu tráfego intenso: a todo momento muitas pessoas saíam da cidade enquanto muitas outras chegavam; lá de cima parecia que eles estavam todos andando em círculos, como quem não sabe aonde quer ir. Quantas vezes dali, da sacada do décimo primeiro andar, ela tinha parado para assistir, em silêncio, o espetáculo das luzes dos carros, que corriam como baratas tontas, já não sabia dizer. E quantas vezes ela não estava sozinha?
A essa altura ele já devia estar longe. Por não ter pedido para que ele ficasse, ela não se sentia no direito de ficar triste. Ele tinha ido embora. No entanto, agora que ela se lembrava, percebia que ele nunca tinha estado ali de verdade. A essa altura, ele já devia estar longe, mais longe de que jamais esteve. Ele devia já ter pulado do topo do mundo, estendido suas asas e ido bem mais alto do que o alguém que tinha chegado mais alto. Ele foi feito para coisas grandes. Esse mundo parecia pequeno demais para ele.
– Não deixe a vida passar, pegue carona com ela. – Foi o que ele lhe disse certa vez, e, agora, aquilo ecoava na cabeça dela. Ela se envergonhava de sua fraqueza, de sua ingenuidade de acreditar que a vida já era boa assim, que somente o tempo poderia lhe trazer boas coisas; ela fora ingênua de acreditar que, como das outras vezes, desta vez ele voltaria. Ela tinha sido ingênua de ter por tanto tempo esperado o sol voltar a brilhar; tinha sido ingênua de ter acreditado que o sol brilhava para ela. Lembrou-se das tantas vezes que, como uma criança, buscava respostas nas coisas mais bobas; procurara por entrelinhas sutilmente dedicadas a ela, versos por ela inspirados, sonhos por ela suspirados, lágrimas por ela derramadas. Mas o que lhe restavam eram lágrimas derramadas por ela.
Sem querer, ela tinha aumentado o tempo da música; e ofegava; e acentuava todas as notas; e sua mão suava; e ela tocava mais e mais rápido; e as cordas rangiam; e ela segurava tão forte que parecia que o arco ia quebrar; seus dedos tremiam.
Depois de um tempo, acostuma-se até mesmo com a confusão do si bemol menor; o que parecia confuso e destoante, depois de tanto ter sido martelado, agora parecia apenas um tom menor, como qualquer outro; qualquer que fosse o sentimento dela agora, não parecia confuso; era uma mistura da tristeza do tom menor com a raiva com que ela fazia soar as notas. Ela suava frio; o brilho do suor se confundia com o das lágrimas. Sua maquiagem já havia tempo estava borrada.
Entretanto ela se sentia forte. Perguntava-se se os efeitos dos remédios já tinham começado. As ideias pareciam muito mais claras em sua cabeça; mais uma vez, o violoncelo tinha lhe ajudado. Parou de tocar e debruçou-se sobre a sacada. Olhava o horizonte distante daquele fim de tarde de nuvens cinzentas. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino. O frio tinha diminuído. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino. Secou com as mãos as lágrimas do rosto. Lá embaixo, os carros corriam como formigas sem destino.
De braços abertos, ela deixou o corpo pender sobre o parapeito e, com os pingos da chuva fina lhe acariciando a pele, ela se deixou cair e, enquanto planava no ar e sentia o vento batendo em seu rosto, esperava ser acolhida nos braços dele, que com suas asas certamente a salvaria antes que ela atingisse o chão. – Era o que ela estava fazendo com sua vida; diante de seus olhos, ela via a vida vazia que vivia.

Janela para um Pensamento Inacabável

Do alto da minha janela eu via as pessoas caindo. Elas nem percebiam que estavam cada vez mais perto do chão; nos seus olhos se expressava uma alegria desmedida. Parecia que eles não faziam ideia de o que era cair; em sua queda livre, eles faziam coisas que se pensassem duas vezes não fariam. Casais casavam-se no ar; alguns homens carregavam enormes cargas de alimento, sem saber que, na água, lá embaixo, tudo aquilo, inclusive eles, seria comida para os peixes, que, mansos, esperavam pacientemente.
Às vezes, sem perceber, eu passava horas prestando atenção no instinto dessas criaturas; parecia que elas eram todas feitas de pano – por isso, vez ou outra, ingenuamente, eu acreditava que algumas delas talvez conseguissem não se arrebentar nas águas geladas lá debaixo ou, pelo menos, não fossem comidas pelo peixes. Nos seus rostos, que se pareciam maquinalmente uns com os outros, expressava-se uma inexpressividade que parecia dizer que, por dentro, mais ainda, eles se assemelhavam a bonecos de pelúcia. O olhar dos cadentes era frio – por mais feliz e amigo que fosse; eles tinham uma auto-confiança de quem sabe tudo e tem certeza que ninguém mais sabe. Eu tenho pena deles.
Na maior parte do tempo, no entanto, eu preferia não assistir a esse – por que não dizer? – maravilhoso espetáculo do tempo; não foi só uma vez que me vi, abraçado aos meus livros que nunca li, enrolado num cobertor de plumas, observando atentamente um ponto qualquer na parede e ali, inerte, permanecendo por horas intermináveis que, para mim, passavam rápido demais.
O barulho das pessoas não me incomodava, mas, de maneira alguma, me era prazeroso. Havia dias em que, por acaso ou vontade do destino, meu estado de espírito me fazia, sem prestar atenção, prestar atenção no quanto me fazia falta ter dias inteiros em silêncio, sem vozes, sem o barulho do vento, sem queixas, sem gemidos: o silêncio, mudo e envolvente, quente e confortante, ao mesmo tempo em que é frio e egoísta. Ao mesmo tempo que eu queria sair de lá, a tempestade de pessoas ganindo lá fora me fazia querer nunca sair de lá. Se fosse fácil, eu já teria há muito tempo, fechado a maldita janela.
Como quem tenta se justificar ou pedir desculpas, quando me surgem forças extras, eu me pergunto se tem mais janelas como essa minha lá pra cima ou lá pra baixo; haveria mais aberrações como esta, que, alienadamente, assiste ao fim do mundo? que usam todo seu tempo para, de olhos fechados, esperar? É sempre nessas horas que me vem a ideia de que, no fundo, não importa quantas mãos lhe são dadas, cada uma dessas criaturas vai, lá embaixo, morrer sozinha, individualmente. Por isso que, sem pensar duas vezes, como sempre antes, juntei-me à massa cadente para procurar uma janela mais próxima do chão; tentei, tentando manter minha consciência, ser uma parte, e não o todo, desse fluxo contínuo de que sempre consegui ver os defeitos. Já esqueci quão esférico eu fui um dia; hoje minha máscara mostra a superficialidade que me esforço aficionadamente para manter firme.
Mas, antes que meu rosto se torne mais um número no meio dessa imensa multidão, eu tento achar um fim pra mim. Queria que, pra me salvar, você enxergasse em mim aquilo que me faz ser diferente desses outros tantos que, na verdade, se parecem, realmente, muito comigo – afinal, essa diferença não é assim tão sutil. Ou é? Olhando profundamente nos seus olhos, tenho a sensação de já ter lhe visto antes em algum lugar.
– Tem um monte de coisa que eu queria te dizer mas não sei como.
– Você só diz isso?
– É que tem um monte de coisa que eu queria te dizer mas não sei como.

So did mine

Eu corria como um louco. Era tarde da noite; o barulho dos carros cessara quase por completo; não havia ninguém por perto. A cidade estava vazia. Eu tentava deixar para trás tudo aquilo que tentava me destruir; faziam meses que aos poucos meu corpo era dilacerado; em meus braços feridas enormes, em minhas pernas faltavam pedaços; mais um pouco e minha cabeça seria arrancada.
Eu descia ainda correndo por uma rua estreita com postes de luzes amarelas. Aquele silêncio agoniava; só o barulho dos meus passos, pesados na calçada de paralelepípedos. Que horas eram? Parecia que eu corria há horas e sentia que não estava me distanciando. Era como se aquela coisa estivesse presa a mim; eu podia sentir seu calor gelado soprando meu corpo, sentia aquele arrepio congelante que da nuca descia pelas minhas costas. Eu suava frio.
Ao virar a esquina, parado na outra esquina havia um homem. Eu. Não conseguia ver seu rosto, mas sua presença me amedrontava. Pensei em desviá-lo – atravessando a rua, talvez – mas havia algo naquela figura deveras familiar que me atraía a ela! Parei de correr e segui em passos cautelosos até ele; eu não sabia o que aquilo significava, mas, com razão, temia que bem não me faria. Chegando mais perto, consegui ver seus olhos; eram frios, negros como a escuridão que nos rodeava – parecia que em seu redor havia uma aura escura. Aquele não era eu, mas era o que eu me tornaria. Poucos segundos depois, eu seria algo que só existe em algum lugar inatingível. Poucos se lembrariam de mim.
[...]
Eu havia planejando todos os detalhes minuciosamente. E sabia que nada sairia do jeito que eu queria. Preferi, na última hora, abandonar o plano e apenas executá-lo. Naquele momento, o fim era mais importante que o meio. Não sei por quanto tempo esperei; tudo o que lembro não é de muito antes de nosso rendezvous.
Esperei naquela velha esquina. Eu sempre vinha àquele lugar. Sabia que procuraria aquele lugar numa hora de desespero. Meu medo o traria a mim. Em pé, esperei. Minhas mãos geladas não ajudavam a esquentar o aço frio que tentava esconder em meus bolsos.
Como um boneco mal manipulado, como esperado, eu virei a esquina como um louco fugindo do invisível, com um medo irracional, infantil e doentio estampado no rosto. Seus olhos eram de súplica, me olhavam como se eu fosse sua última esperança. Sem ter consciência disso, com isso, ele assinava sua sentença de morte.
Sem pensar duas vezes, por já ter pensado inúmeras vezes antes, atirei-lhe no peito e ele caiu duro no chão frio. Seu rosto exprimia alívio. O meu também. Ele morria. Não deixava filhos nem testamento conhecido. Era menos um que vivia.
Juntei o corpo e joguei sobre os ombros. Por um tempo, como castigo, tenho que carregá-lo por onde quer que eu vá. Seu medo irracional me seguirá por uns tempos. E quando terminar de me corromper, eu serei morto, como todos os outros antes de mim. Em breve, todos seremos mortos, um a um.
[...]
O tempo parou.
A água da chuva que escorria no meu rosto tinha gosto de chocolate.
(O Fantasia Orgânica tem muito das características do Sub-Realidade, no entanto é longo demais pra caber aqui. Resolvi fazer uma página só para ele. Divirta-se.

Quantas horas fiquei fitando essa página em branco até ter a coragem de escrever essas primeiras palavras. Tem tantas coisas que eu queria dizer pra você, mas que não sei como. Às vezes, parece que me faltam as palavras; noutras, parece que não existem as palavras de que preciso. Às vezes, é o silêncio que expressa o que eu quero dizer. Às vezes, seria melhor, talvez, eu deixar a página em branco — quem sabe assim eu seria mais bem entendido.

Lágrimas de Orvalho

Como um girassol, vi o sol nascer e segui-o até o momento em que se pôs. Meus olhos não agüentaram e desistiram antes de mim. Então, cego, procurei a lua. Mas só o que minha mente conseguia ver era o sol. Por algo maior, perdi a sensibilidade para apreciar detalhes; já não mais via a lua nem sabia mais o que eram estrelas — e não sei se um dia soube.
Caído no chão úmido, coberto de orvalho, tentava me convencer a acreditar que fora daquele jardim existiam luzes no fim do túnel. Eu tinha medo das flores e das folhas que caem das árvores; sentia-me perdido; sentia-me sujo. Sentia como se meus dias fossem mais longos e as minhas noites fossem piscares de olhos.
Ensaiei buscar estrelas cadentes; ensaiei buscar o fim do arco-íris. Sempre quis saber como é estar onde eu não estou. Meus sonhos eu arquitetei sobre bases frágeis; sinto não ter estrutura pra sustentar meus próprios anseios.
Desde que desaprendi a voar, fui deixado e esquecido aqui. Meu rosto, colado no chão, se congelava na geada. Minha respiração se enfraquecia. Meu coração eu sentia bater sem forças. Meus devaneios se esvaneciam no ar pesado que me rodeava.
Um dia tive asas. Um dia voei e só depois descobri o quanto isso me era caro. Aprendi o que é ter um pedaço de meu corpo arrancado. Mesmo que se tentasse substituí-las, nada se compararia. O que me puseram no lugar das asas foi um medo doentio e uma medíocre falta de razoabilidade que sempre temi ter que enterrar junto comigo.
Como um verme, rastejei por aquele jardim. Guiado por algo além de mim, uma intuição mais cega do que meus sentidos, esperei por várias luas. Não importa o que eu fazia, tudo, no fim, trazia-me de volta ao sol. Cavei um fundo buraco e joguei-me dentro dele; permaneci lá por um tempo que pensei ter sido um século. Assim que o sol nasceu me vi em pé e ansioso por vê-lo sair detrás das nuvens. Por um longo tempo senti-me frustrado por não tê-lo visto; fiquei horas, doente, sob a chuva; eu sabia que ele estava lá, com todo seu esplendor, brilhando por trás daquele dia cinza.
Como um verme, criei-me um casulo e tranquei-me dentro dele — numa esperança ingênua de que se criem de volta minhas asas. Ainda espero o sol — e não sei se devo me orgulhar disso. Ainda me sinto sujo. E ainda estou cego.

No fim das contas, aquela sim foi uma noite ensolarada.

dormi demais

Eu acho que eu dormi demais. Também: foi um daqueles dias cansativos; tive que fazer hora extra e tal; eu tava realmente exausto. Sei lá por quanto tempo eu dormi; mas, com certeza, foi bastante; sabe quando você dorme demais e parece que você não dormiu tudo? parece que você acorda ainda mais cansado. Dormi por mais tempo do que eu realmente precisava.
E aconteceu tanta coisa enquanto eu dormia.
Os gêmeos que minha mulher tava esperando nasceram. Ela teve que largar o serviço pra poder cuidar das crianças; acabou fazendo uns bicos vendendo um catálogo da Hermes e bijuterias. As crianças cresceram tão rápido! O piá – que Deus o tenha – foi baleado aos quatorze. Até não tenho dó porque ele devia; mexeu com o que não devia. Tenho pena do meu netinho que ficou sem pai. Esse mundo já é ruim, imagina se a gente não puder contar com nossos pais, com nossa família. A menina, por sua vez, ajudou a mãe aqui em casa até onde deu; terminou a faculdade e fugiu com um roqueiro pra Europa. Minha mulher, não sei bem onde é que tá. Nossa casa foi penhorada; o banco não quis aceitar nosso humilde pedido de desculpas. Meus amigos, pior ainda pra eu saber onde que tão.
Agora eu tô aqui, nesse lugar que eu não sei muito bem o que é, rodeado de velhos. Uma moça bem simpática me disse que ela já voltava com os remédios e que já, já a gente vai almoçar; ela disse que foi minha filha que me trouxe aqui e disse que viria me visitar. Se é verdade, não sei dizer com certeza. O fato é que me sinto bem mais cansado. Eu dormi bastante, mas não foi suficiente. Quanto tempo eu vou ter que dormir pra acordar tudo bem?

ela tentou tocar o céu e voou pelo menos uma vez.

LiEBEN

Estava bem frio. Aquela garoa fina incomodava. Uma tarde cinza de outono.
Com um olhar vago, Johan assistia o dia passar.
Estava sentado num daqueles bancos da fria rua XV. As pessoas, enroladas em seus cachecóis, agasalhados ao máximo, desfilavam em câmera lenta.
Ela não viria.
No seu colo, Johan segurava um buquê de flores. Ligara para ela, não obteve resposta; mandara-lhe e-mails; deixara-lhe recados.
Pela manhã, antes de ela sair para o trabalho, ele deixou um bilhete com o porteiro. Um pedido de desculpas. Nele, pedia para que ela viesse aqui, agora.
Sem perceber, tinha puxado as flores para mais perto de si; indefeso, abraçava as flores. Tinham um cheiro reconfortante. Tirou as luvas e começou a tocá-las, uma por uma.
Dentre elas, uma margarida laranja. Solitária em meio a rosas e espinhos. Suas pétalas eram as mais macias. Fizeram-no sentir-se sensível; percebeu-se vulnerável
Ela não viria.
Pôs de novo as luvas. Olhou em volta. Numa cafeteria, ali perto, via-se um casal eloqüente, gesticulavam e sorriam. Um casal de meia idade com um casal de filhos tomavam chocolate quente na mesa ao lado. Um senhor de barba bem cuidada lia seu jornal e fumava um fumacento cachimbo.
O mundo havia girado rápido demais para Johan; ele não conseguira acompanhar. E agora esperava em vão por alguém que temia nunca mais ver.
Ele, que só queria poder pedir desculpas e que sonhava em ser perdoado. Ele, que, embora tenha sido sensível o bastante para ter amado de todo o seu coração, não fora sensível o bastante para ser amado de volta.
Ela não viria.
Quantas horas se passaram até que ele se desse conta disso e achasse forças para ir embora?
Seus olhos lacrimejavam. Devido ao vento frio, talvez.
Ele tirou a margarida do buquê e levou consigo. Saiu em passos largos, rápidos e cambaleantes para um lugar que nem ele conhecia. Jogou no lixo o buquê e com ele o cartão de feliz dia das mães.


willian

RIS, MEXICANA ASA NEGRA

Há quanto tempo estou aqui? Não sei. Já tomei mais da metade dessa garrafa. Estou perdido aqui dentro; tranquei todas as portas. Meu raciocínio já perdeu velocidade; nem penso mais direito. Mas ainda penso em ti.
Estou cansado; devo ter andado quilômetros de um lado pro outro dentro dessa sala. Mas não estou mais ansioso. Eu esperava – em vão, penso agora – que as coisas mudassem – e rápido; só que agora eu sei que a situação saiu do meu controle.
Me sinto como se fosse morrer; ou já estou morto. Não sei o fim dessa história. Em minhas mãos, uma garrafa de tequila; não sei até onde chega meu autocontrole – até onde controlo minha sensatez e não começo a beber?
Eu sei que não consigo me controlar se eu beber demais; não tem segredos, perco meus valores morais e fico vulnerável. Tudo o que quis falar será falado.
Nas paredes, escrevi teu nome. Em azul. Ficas tão bonita de azul. Não entendo porque alguém pode dizer que o azul é uma cor triste; o mar, o céu, tu. A garrafa, pela metade, não me deixa mentir. Eu te abraço minha mexicana, e não sinto teus braços em meu redor. Sei que ris, mexicana asa negra, teu sarcasmo me comove.
Meio cheia; ou meio vazia? Tento preencher minha mente com qualquer tipo de raciocínio, qualquer coisa que me leve pra longe de ti; tu não estás aqui agora – e não quer estar. Mas esse dia vai chegar, eu espero.
Essa garrafa vazia me joga na cara que estou sozinho. A menos esse cara irônico que tenta metaforizar o óbvio e esse sujeito que finge entender de si mesmo – no mais, sou só esse velho caído, bêbado, sem razão em querer dizer qualquer coisa. E esse não sou eu; eu não estou aqui, portanto não estou aqui sozinho.
Quantas vezes vou ler teu nome na parede? Agora não cabe mais nenhum, eu o escrevi bem grande – em azul! Estavas tão bonita hoje.
Termino com reticências. Sei que não lerás o que quer que eu venha querer a dizer. Essa poesia vai ficar escondida no meio das outras, que querem dizer muito mais do que essa e terão a mesma atenção: um olhar desinteressado e um rumor de “depois eu leio”.
Vou destrancar a porta. Alguém me leva pro hospital.


willian

... e mais uma vez, sem perceber, eu, desnecessariamente, tinha pedido mesa pra dois.

O Espetáculo do Avesso

Já era tarde da noite; aos poucos o relógio chegava à meia noite.
Juquinha era um piazinho que tinha menos de dez anos.
Garoava.
A praça situava-se bem próximo do centro da cidade. Havia muitas árvores.
Juquinha estava sentado no chão, encostado na mureta de um dos canteiros de flores. O cabelo lhe escorria na cara. No seu colo, um diário; ele parara de escrever, a água borrava as palavras – palavras estas que talvez nem mesmo ele viesse a ler.
Na capa do diário lia-se ‘meus pecados’.
Na praça, Juquinha estava sozinho, mas nas ruas ao redor da praça haviam pessoas – várias delas. Todas estavam paradas, imóveis de costas para Juquinha. Algumas das pessoas usavam chapéus como os de Napoleão; outras, sapatos maiores do que os pés; havia ainda alguns que usavam enormes perucas coloridas – suas cabeças pareciam enormes palitos de fósforo.
Ao longe, se ouviam tiros. Explosões que ecoavam nos prédios da vizinhança. Brilhos no céu, que, devido à chuva, lembravam relâmpagos.
Juquinha pegar os gizes coloridos e começava a escrever com a mão esquerda. Como Anne Frank, Juquinha se abraçava ao mundo de seus pecados.
Como vagalumes, as balas cruzavam veloz e ferozmente a praça; de todos os lados, mas sem atingir as coloridas estátuas vivas do outro lado da rua. Zuniam por sobre a cabeça de Juquinha.
À meia noite a chuva cessara, as estrelas brilhavam no céu; talvez uma lua ousasse aparecer. Diminuiu-se o volume do som dos tiros e as explosões pareciam estar a mais de cem milhas.
Sem balas cruzando a praça e zunindo sobre sua cabeça, Juquinha pôs-se em pé.
Como se um botão tivesse sido apertado, as pessoas começaram a se mexer: aleatoriamente. Andavam em círculos, procuravam coisas pelo chão; um olhava no céu com a mão no queixo, como se sua atitude fizesse sentido; um deles, com uma roupa listrada em branco e preto, equilibrava uma vassoura nos dedos.
Ao fim da décima segunda badalada, Juquinha cai no chão. Ele é atingido por uma última perdida e solitária bala, que com sua luz verde zuniu por toda praça antes de atingi-lo. O grito de Juquinha ecoa nos prédios da vizinhança.
O diário, caído no chão, será esquecido por todo o sempre.
Mas Juquinha não morreu!
Ele levanta-se, com passos cambaleantes atravessa a rua e se junta aos outros transeuntes. Seu olhar é vazio, sua maquiagem é branca e há um sorriso pintado em vermelho em volta de sua boca. Seu nariz agora é uma bola vermelha.




willian